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A economia criativa no Acre em 2026: forte na prática, frágil no reconhecimento

Falar da economia criativa no Acre em 2026 é reconhecer uma contradição evidente. Ela é forte na prática, presente no cotidiano e nas diferentes realidades locais, mas ainda frágil no reconhecimento institucional. Há aproximação do poder público e de instituições que atuam nesse campo, porém esse diálogo ainda se mostra insuficiente diante da diversidade, da complexidade e da potência das iniciativas existentes. Essa fragilidade aparece tanto no reconhecimento quanto na oferta de formação continuada, de oportunidades qualificadas de capacitação e de acompanhamento estruturado para quem produz e para quem organiza os espaços de circulação econômica.

Tanto quem está na ponta, como artesãs, artesãos, trabalhadores da gastronomia e da agricultura familiar, quanto quem atua na organização de feiras, eventos e espaços coletivos enfrenta desafios semelhantes. Ainda há pouco investimento em processos formativos mais aprofundados, capazes de fortalecer competências técnicas, gestão, organização coletiva e visão estratégica, fundamentais para a sustentabilidade dessas iniciativas no médio e longo prazo.

O consumidor acreano já compreendeu o valor do que é produzido localmente. Valoriza produtos artesanais, afetivos, com identidade, que cabem no bolso e carregam significado. As feiras de economia criativa revelam isso cotidianamente. Elas deixaram de ser apenas espaços de venda e se consolidaram como ambientes de circulação de renda, fortalecimento da identidade amazônica e acreana e reconexão entre quem produz e quem consome.

No pós-pandemia, esse movimento ganhou ainda mais relevância. Mulheres crocheteiras, artesãs, tacacazeiras, cozinheiras da gastronomia local e tantas outras encontraram nesses espaços não apenas uma fonte de renda, mas um caminho de retomada da autoestima, do pertencimento e da autonomia econômica. Cursos e oficinas, muitas vezes conduzidos pelas próprias mulheres desses grupos, contribuíram para a melhoria dos produtos e da organização do trabalho, ainda que grande parte desses esforços siga sustentada pela iniciativa dos próprios coletivos.

Nesse contexto, olhar para a economia criativa também exige olhar para a cidade. Na capital e nos municípios do interior, espaços públicos, praças e áreas centrais vêm perdendo vitalidade ao longo dos anos, seja pela sensação de insegurança, seja pela fragilidade de políticas integradas voltadas às pessoas em situação de rua, seja pelo enfraquecimento do uso coletivo desses territórios. Esse esvaziamento impacta diretamente a vida urbana, o comércio local, a circulação cultural e o sentimento de pertencimento da população.

Reocupar esses espaços com atividades culturais, feiras, encontros e iniciativas comunitárias, valorizando o patrimônio histórico e a convivência, não é responsabilidade exclusiva do poder público. Trata-se de um esforço compartilhado entre governos, instituições, comerciantes, coletivos, associações e moradores, a partir de um olhar mais humano, cuidadoso e comprometido com a cidade como território vivo.

É nesse ponto que se torna ainda mais relevante o papel das instituições junto aos coletivos e associações produtivas. Fortalecer a organização coletiva, apoiar a regularização e a construção de CNPJs sólidos amplia as possibilidades de acesso a editais, parcerias e fontes de financiamento para além do poder público local, alcançando recursos no Brasil e no mundo. Isso é plenamente possível diante da potência cultural, ambiental e simbólica do Acre e da Amazônia.

Ampliar esse olhar significa compreender que a economia criativa dialoga diretamente com a economia circular, a economia popular e solidária. No Acre, esses conceitos não são abstratos. Eles se manifestam na prática cotidiana, em experiências onde mulheres são protagonistas, pequenos empreendedores gerenciam seus próprios negócios e o trabalho coletivo se mostra mais eficiente, sustentável e solidário.

A bioeconomia, por sua vez, precisa ser reconhecida como prática concreta, presente nos municípios, na zona rural, nas comunidades tradicionais e nas aldeias indígenas. Um exemplo importante desse avanço é o plantio de café, que hoje coloca o Acre em destaque no Brasil e no mundo, com reconhecimento por meio de premiações, investimentos em formação, assistência técnica e fortalecimento de cadeias produtivas. Essa trajetória demonstra que, quando há continuidade, apoio estruturado e políticas bem direcionadas, os resultados aparecem.

Ao mesmo tempo, é fundamental compreender que a bioeconomia no Acre não se limita a uma única cadeia produtiva. Há outras possibilidades igualmente potentes, ligadas ao manejo sustentável, à agricultura familiar, à transformação de produtos da sociobiodiversidade e aos conhecimentos tradicionais, que ainda carecem de maior visibilidade, pesquisa aplicada e investimento continuado. O desafio está justamente em ampliar esse olhar, garantindo que o fomento alcance diferentes territórios, saberes e iniciativas, respeitando suas especificidades e fortalecendo uma bioeconomia diversa, viva e enraizada na realidade amazônica.

A expectativa para 2026 é que economia criativa, bioeconomia, economia circular e economia popular e solidária sejam compreendidas de forma integrada, como partes de um mesmo processo de desenvolvimento. Não como ações isoladas, mas como economias vivas que já existem e precisam ser fortalecidas.

O Acre já construiu um jeito próprio de fazer essas economias circularem. Em 2026, o desafio não é começar do zero, mas reconhecer, fortalecer e cuidar do que já existe.

Porque o futuro da economia acreana não é promessa. Ele já está em curso, todos os dias, nas mãos de quem cria, cultiva, transforma e sustenta a vida econômica a partir da ponta.

Lidianne Cabral

Educadora social, comunicadora e articuladora de redes de empreendedorismo feminino. Atua há mais de 20 anos na construção de iniciativas locais, nas redes de empreendedorismo e na rede de proteção a mulheres vítimas de violências de gênero, com foco na autonomia econômica e na economia criativa.