Por trás das cortinas, Moraes mandar Bolsonaro pra “Papudinha” é justiça ou revanchismo?
Há decisões judiciais que vão além do papel técnico e passam a dialogar diretamente com a opinião pública. A determinação do ministro Alexandre de Moraes de transferir Jair Bolsonaro para a chamada Papudinha, no Complexo da Papuda, é uma delas. A pergunta que ecoa fora dos autos não é jurídica, é política e simbólica: trata-se de justiça ou de revanchismo?
Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses por liderar uma tentativa de golpe de Estado, deixou a Superintendência da Polícia Federal e foi levado para a Sala de Estado Maior do 19º Batalhão da PMDF. O local é conhecido, carrega peso simbólico e já abriga outros nomes ligados ao seu governo. A decisão veio acompanhada de medidas formais, como a determinação de uma junta médica oficial para avaliar seu estado de saúde. Do ponto de vista processual, tudo parece seguir o rito. Do ponto de vista político, a leitura é outra.
O Supremo não julga apenas crimes, julga também narrativas. E, nesse caso, a narrativa que se constrói é dura. A imagem de um ex-presidente na Papudinha não é neutra. Ela comunica algo para a sociedade, para a militância, para a história. E é justamente aí que surge o incômodo: o rigor aplicado agora foi o mesmo em outros momentos emblemáticos da recente história política brasileira?
Quando Luiz Inácio Lula da Silva foi preso, em 2018, o tratamento foi distinto. Lula permaneceu em instalações da Polícia Federal, em Curitiba, em condições especiais, amparado por decisões que levavam em conta sua condição de ex-presidente e questões de segurança institucional. Não houve pressa em associar sua imagem a um presídio conhecido, nem em reforçar simbolismos punitivos. O discurso, à época, era o da preservação da dignidade do cargo que ocupou, ainda que houvesse condenação.
Por que, então, agora é diferente? A resposta oficial é simples: os casos são distintos, os crimes são outros, o contexto institucional mudou. Tudo isso é verdade. Mas também é verdade que a Justiça precisa ser não apenas imparcial, mas parecer imparcial. Quando decisões ganham contornos de demonstração exemplar, o risco é que deixem de ser vistas apenas como aplicação da lei e passem a ser interpretadas como acerto de contas.
Alexandre de Moraes tornou-se o rosto mais visível do enfrentamento ao bolsonarismo no Judiciário. Isso não é um julgamento moral, é um fato político. E fatos políticos contaminam percepções jurídicas. Ao escolher a Papudinha, ainda que tecnicamente justificável, o Supremo assume o risco de reforçar a narrativa de perseguição que Bolsonaro e seus aliados exploram com habilidade.
A democracia não se fortalece apenas punindo quem a atacou. Ela se fortalece quando a punição é incontestável, serena e isenta de simbolismos desnecessários. Justiça firme não precisa ser teatral. Caso contrário, a linha que separa o rigor legal do revanchismo político fica tênue demais para um país que já viveu excessos de ambos os lados. dias. A defesa e a Procuradoria-Geral da República poderão indicar assistentes técnicos e apresentar quesitos no prazo de 24 horas.