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Quando até 70 câmeras não bastam: o que o BBB diz sobre nós

Por Lidianne Cabral

 O que aconteceu no Big Brother Brasil nos últimos dias não é apenas um episódio de reality show. É um espelho. Um daqueles que a gente evita encarar por muito tempo, mas que, quando colocado diante de milhões de pessoas, já não permite fingir que nada aconteceu.

 

Uma mulher foi assediada diante de mais de 70 câmeras. Mas o mais revelador não foi apenas o ato em si, e sim tudo o que veio depois. As tentativas de relativizar, justificar e suavizar. Os discursos de que “não foi a intenção”, de que “faltou comunicação”, de que “ele é muito novo”, de que “era só um menino”. Houve até quem dissesse sentir pena, afirmando que a vida dele havia sido destruída.

 

Em nenhum desses argumentos, porém, o foco esteve na mulher. Pouco se falou sobre como ela estava, sobre os impactos emocionais, sobre o constrangimento público ou sobre o direito básico de não ser violada. A narrativa se organizou rapidamente para retirar responsabilidade, proteger trajetórias masculinas e deslocar o centro da discussão.

 

Nada disso é novo. Nada disso é ingênuo.

 

Esse tipo de discurso faz parte de uma estrutura histórica que protege homens, transfere responsabilidades e coloca sobre as mulheres o peso da dúvida, da explicação e da tolerância. Um mecanismo silencioso, naturalizado ao longo do tempo, que segue operando mesmo quando tudo está registrado, visível e explícito.

 

E é justamente isso que o BBB escancarou: mesmo quando tudo está à vista, ainda encontramos formas de não enxergar.

 

Há, no entanto, um ponto ainda mais incômodo. Quando mulheres reproduzem essas narrativas, minimizando falas femininas ou priorizando a defesa masculina, o dano se amplia. Não porque mulheres sejam responsáveis pelas estruturas, mas porque a divisão entre mulheres sempre foi funcional para mantê-las. Assim se perpetua a rivalidade feminina, não como traço individual, mas como um aprendizado imposto, repetido e internalizado.

 

O episódio também dialoga diretamente com a nossa realidade no Acre. Um estado com altos índices de violência contra a mulher, marcado por uma cultura machista que ainda questiona a autonomia feminina. Paradoxalmente, são justamente as mulheres que sustentam grande parte das iniciativas comunitárias, associações, pequenos negócios, projetos sociais e espaços de liderança.

 

Elas chegam a esses lugares por preparo, estratégia e leitura profunda da realidade. Esse olhar não é sobre cuidado no sentido estereotipado, mas sobre responsabilidade, análise de impacto e compromisso coletivo.

 

Ainda assim, romper estruturas permanece difícil. Porque dividir mulheres interessa. Porque quando mulheres competem entre si, desacreditam outras mulheres ou silenciam diante de violências, o sistema segue confortável, intacto e protegido.

 

Superar isso exige maturidade social. Exige reconhecer que apoiar mulheres não é passar a mão na cabeça, mas garantir justiça. Fortalecer mulheres não é conveniência, é equidade. E compreender desigualdades entre mulheres, negras, indígenas, periféricas, mães sozinhas e mães atípicas é condição básica para qualquer avanço real.

 

Mas essa responsabilidade não é apenas individual. Instituições, programas, organizações e espaços de poder precisam estar preparados. É fundamental que existam protocolos claros, acolhimento adequado e caminhos objetivos para que mulheres não sejam revitimizadas. Seja dentro de um reality show ou fora dele, é preciso deixar explícito onde buscar ajuda, quais são os mecanismos de proteção e como o cuidado será garantido.

 

Também é essencial que outras mulheres se posicionem. Apoiar uma mulher não significa abdicar de critérios, mas reconhecer que o silêncio, a omissão e a relativização sempre favorecem quem já ocupa posições privilegiadas.

 

O papel dos homens é igualmente determinante. Avançar exige reconhecer privilégios, respeitar limites e abandonar narrativas de confusão ou imaturidade como justificativa para violências. Mas exige, sobretudo, que essas narrativas não sejam sustentadas socialmente.

 

O BBB apenas tornou visível o que muitas mulheres vivem fora das câmeras todos os dias, muitas vezes sem testemunhas, sem repercussão e sem debate. A diferença é que, desta vez, tudo estava ali, registrado. E ainda assim houve quem escolhesse não ver.

 

Por isso, a pergunta que permanece é simples e profunda: o que diz sobre nós o fato de que até 70 câmeras não bastam para que a violência seja reconhecida?

 

A resposta está na forma como lidamos com o poder, com o silêncio e com a conveniência. Está na disposição, ou na resistência, em romper estruturas que seguem desacreditando mulheres, dividindo vozes e normalizando violências.

 

Crescer como sociedade exige apoio consciente entre mulheres, instituições preparadas, decisões responsáveis e compromisso real com justiça social. É assim que se avança no empreendedorismo, nas políticas públicas, nos espaços coletivos e em qualquer lugar onde o poder ainda insiste em excluir.

 

Mulheres não precisam competir para existir.

Precisam se reconhecer, se posicionar e agir com estratégia.

 

Porque transformação não nasce apenas do que vemos.

Nasce do que escolhemos fazer com aquilo que já não pode mais ser ignorado.