No país do feminicídio, a coleira no pescoço deixa de chocar e passa a ser vendida como amor, em nome do engajamento
Quando o amor vira performance, algo se perde no caminho. Não porque demonstrar afeto em público seja, por si só, um problema, mas porque, na lógica atual das redes sociais, sentimentos passaram a ser tratados como estratégia de engajamento. O romance deixa de ser vivido para ser exibido. E, nesse processo, o amor, que deveria ser íntimo, imperfeito e real, corre o risco de se tornar cafona, caricato e esvaziado de sentido.
O episódio envolvendo Virginia Fonseca ilustra com clareza esse fenômeno. Ao abrir as portas da mansão de Vini Jr., localizada em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, para uma equipe do gshow, a influenciadora participou do ensaio de Carnaval do portal, que revisita fantasias icônicas da história da folia. Coube a ela o papel de homenagear Luma de Oliveira, recriando a célebre fantasia de onça-preta usada no desfile da Tradição em 1998, marcada pela coleira que trazia o nome de Eike Batista, então marido da modelo.
Décadas depois, o gesto reaparece atualizado para os tempos digitais. A coleira permanece, mas agora carrega o nome de Vini Jr. O impacto não está na homenagem em si, mas na repetição de um símbolo carregado de significado, esvaziado de contexto e reposicionado como ferramenta estética de engajamento. O que antes provocava debate e ruptura hoje parece calculado para viralizar, gerar comentários e alimentar o algoritmo.
A coleira no pescoço deixa de ser apenas um adereço carnavalesco e passa a simbolizar algo maior. Ela sugere posse romantizada, submissão performática e a transformação do afeto em espetáculo. E essa simbologia não pode ser analisada de forma ingênua em um país como o Brasil, que figura entre os países com os maiores números de feminicídio no mundo. Em uma sociedade marcada por violência de gênero, a romantização de símbolos associados à posse e ao controle não é neutra, nem inofensiva.
O amor deixa de ser experiência e passa a ser narrativa. O parceiro vira marca. O corpo, vitrine. O sentimento, conteúdo. Em um contexto social tão desigual e violento para as mulheres, transformar gestos de dominação em estética pop reforça discursos perigosos, ainda que embalados por glamour, luxo e likes.
Vivemos uma era em que relações também precisam performar bem. Precisam render curtidas, manchetes e compartilhamentos. Quanto mais exagerada a demonstração, maior o alcance. Mas, nesse excesso, o gesto perde autenticidade e responsabilidade. Quando cada prova de amor parece pensada para a câmera, o que sobra fora do enquadramento?
Talvez o verdadeiro luxo hoje não seja uma mansão, um ensaio glamouroso ou uma imagem cuidadosamente produzida, mas a possibilidade de viver o afeto longe da lógica do engajamento. Um amor sem coleira, sem legenda e sem a necessidade constante de validação pública.