Da fogueira às redes: Quando a voz da mulher vira ameaça
Mulheres, poder, silenciamento e a construção coletiva da voz feminina
Eu aprendi sobre liderança muito antes de conhecer qualquer teoria. Aprendi observando mulheres.
Eu era muito pequena quando vi, pela primeira vez, Almerinda Cunha pegar o megafone em frente ao Palácio Rio Branco. Era uma de muitas greves das quais participei desde criança, acompanhando mulheres que organizavam, lideravam e sustentavam lutas coletivas no Acre da década de 1990. Aquele momento ficou marcado em mim. Não foi apenas a força da voz. Foi a presença. Foi entender, mesmo sem saber nomear, que aquela mulher falava por muitas.
Cresci vendo isso acontecer. Vi Conceição Cabral(minha mãe), Concita Maia e tantas outras mulheres dos movimentos sociais liderarem mobilizações na educação, no sindicalismo e em diferentes frentes da organização popular. Minha mãe, como tantas mulheres, carregava uma sobrecarga imensa de trabalho e responsabilidades e, muitas vezes, precisava me levar junto. Foi nesses espaços, entre faixas, discursos e emoção, que algo se formou em mim.
Quando essas mulheres falavam, eu entendia que a palavra pode mover estruturas. Que a voz da mulher, quando se levanta, nunca é individual. Ela carrega histórias, dores, sonhos e projetos coletivos. Eu me via ali, desde muito pequena. Foi naquele chão que aprendi que mulheres podem liderar, podem incomodar, podem transformar.
Essas mulheres seguem comigo até hoje. E não apenas elas. Outras tantas mulheres, de movimentos sociais, de coletivos e de grupos organizados dentro e fora da gestão pública, continuam sendo referência para mim. Mulheres que constroem no cotidiano, que articulam redes, que sustentam processos e que seguem inspirando, mesmo quando não são reconhecidas publicamente. Essa inspiração é contínua.
Minha história pessoal não é exceção. Ela revela um padrão.
Sempre que mulheres ocupam espaços de poder, sempre que falam com firmeza e recusam o papel da mulher agradável, a reação vem. Ontem foi a fogueira. Hoje, o linchamento é digital.
A misoginia, entendida como o ódio, a aversão ou o desprezo à figura da mulher e ao que ela representa, raramente aparece apenas como violência explícita. Ela se manifesta, sobretudo, na tentativa de deslegitimar. Mulheres líderes são chamadas de desequilibradas, frias ou autoritárias. O que nos homens é visto como liderança, nas mulheres vira ameaça. O incômodo quase nunca está no conteúdo. Está na voz.
Historicamente, mulheres que lideraram, organizaram, educaram e romperam padrões foram chamadas de bruxas. A caça às bruxas nunca foi sobre misticismo. Sempre foi sobre controle. Sobre silenciar mulheres que pertenciam a si mesmas. Hoje, essa lógica se atualiza nas redes sociais, nos ataques coordenados, nos julgamentos morais e na cultura do cancelamento seletivo. A fogueira agora é digital.
Falamos do Big Brother não por entretenimento raso, mas porque ele funciona como uma experiência social em larga escala. Um recorte da sociedade observado 24 horas por dia, onde valores, preconceitos e violências simbólicas aparecem sem filtro.
Nesse espaço, figuras como Ana Paula Renault seguem causando incômodo porque rompem expectativas. Uma mulher que fala de forma direta, que confronta e que não pede validação constante rapidamente é rotulada como agressiva ou exagerada. O incômodo não está apenas no que ela diz, mas no fato de ela não se colocar a serviço do conforto alheio.
Em contraste, perfis como o de Sarah Andrade revelam outra construção social ainda muito presente. A mulher que busca validação masculina tende a ser mais aceita e protegida. Isso não é uma disputa entre mulheres. É o reflexo de aprendizados sociais que ainda operam.
Essas dinâmicas atravessam o mundo do trabalho, os espaços de liderança, a política e o empreendedorismo. Não basta ser mulher. É preciso observar a serviço de quê e de quem essa liderança se coloca. Algumas mulheres reproduzem desigualdades. Outras reconhecem seus privilégios e escolhem colocá-los a serviço da justiça.
Quando mulheres lideram com consciência do lugar que ocupam, ampliam caminhos. Entendem que sua voz também pode servir às mulheres que não tiveram as mesmas oportunidades. Mulheres negras, periféricas, mulheres encarceradas, mulheres invisibilizadas pelo sistema. Isso não é caridade. É justiça.
No mundo do trabalho e da economia, essa discussão é central. Globalmente, mulheres ocupam cerca de 30 % dos cargos de liderança, mesmo sendo quase metade da força de trabalho. A autonomia econômica feminina segue sendo um dos principais pilares para romper ciclos de dependência, violência e silenciamento.
No Acre, essa realidade tem contornos próprios. Um estado historicamente marcado por um machismo estrutural profundo, mas também por uma presença feminina forte nos movimentos sociais, nas lutas coletivas e, mais recentemente, em espaços institucionais e de governo. Mulheres ocupam secretarias, cargos públicos e posições de decisão. Esse avanço é real, mas não é individual.
Nenhuma mulher chega sozinha. Ela chega porque antes houve movimento. Houve resistência. Houve mulheres organizadas para além dos muros institucionais, sustentando lutas invisíveis, criando condições para que outras pudessem chegar. Reconhecer essa construção coletiva não diminui trajetórias individuais. Ao contrário, as fortalece e amplia a responsabilidade com quem vem depois.
Por isso, esses espaços são importantes. Necessários. Vitais. Mulheres que não se encaixam, que não performam o esperado, precisam de referências vivas. Precisam ver, ouvir e reconhecer que não estão sozinhas e que outras já abriram caminho.
E também é importante dizer: não é apenas sobre ser mulher. É sobre como essa mulher se coloca no mundo, como constrói sua voz, como exerce seu poder e como essa presença impacta a vida de outras mulheres. Liderança feminina não é uniforme. Ela é diversa, plural e precisa ser observada com maturidade, cuidado e responsabilidade.
A liderança feminina se constrói no encontro, no apoio mútuo e na consciência de que ocupar um espaço também é honrar quem pavimentou o caminho. Essa lógica precisa continuar viva, respeitada e cuidada.
Talvez seja hora de mudar o olhar. Menos julgamento. Mais encantamento. Menos desconfiança. Mais gratidão.
A liderança feminina não é concessão. É construção histórica. E se ainda incomoda, é porque continua rompendo silêncios antigos e abrindo caminhos novos.
Lidianne Cabral
Educadora social, articuladora de redes de empreendedorismo feminino, com mais de 20 anos de atuação em movimentos sociais e na construção da autonomia econômica e financeira para mulheres no Acre.