Cada vez mais mulheres vítimas de violência sexual enfrentam medo e angústia ao decidir denunciar seus abusadores
A violência sexual contra mulheres é uma das formas mais graves e silenciosas de violação de direitos humanos, e grande parte dos casos jamais chega ao conhecimento das autoridades. Apesar de os números globais apontarem uma realidade alarmante, especialistas e estudos destacam que o medo de denunciar, motivado por diversos fatores sociais, culturais e pessoais, é um dos principais entraves para que as vítimas busquem justiça.
Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de uma em cada três mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual ao longo da vida, o que representa aproximadamente 840 milhões de mulheres. Dessas, uma parcela significativa não denuncia os abusos sofridos, em parte devido ao estigma, à vergonha e ao medo de retaliação por parte dos agressores ou da própria sociedade. Especialistas alertam que esse número real pode ser ainda maior, justamente porque muitos casos permanecem ocultos diante da falta de denúncias.
Pesquisas sobre subnotificação em violência sexual indicam que mais de 80% das mulheres que passam por esse tipo de violência não relatam o abuso às autoridades, muitas vezes por temer represálias, descrédito ou retaliação. Em diversos países, apenas uma pequena fração dos casos é oficialmente registrada, o que torna difícil mensurar a extensão real da violência e limita a atuação efetiva do sistema de Justiça.
O medo de denunciar está profundamente ligado a fatores que vão muito além do ato em si. Muitas mulheres enfrentam intimidação por parte de agressores que ocupam posições de poder ou têm maior status social, o que pode gerar temor de consequências ainda mais graves, inclusive para suas vidas ou para as de seus familiares. Em outros casos, a dependência econômica, o receio de ser desacreditada ou ridicularizada e a sensação de que o sistema de Justiça não irá protegê-la adequadamente contribuem para que a vítima se cale e carregue o sofrimento em silêncio.
No Brasil, embora existam canais específicos para acolhimento e denúncia, como o Ligue 180, que permite relatar casos de violência contra mulheres de forma confidencial, a subnotificação ainda é um problema persistente. Os dados oficiais sinalizam que muitas mulheres preferem não relatar ou buscam apenas apoio informal, por medo de expor ainda mais sua situação ou sofrer novas agressões após a denúncia.
A violência sexual ocorre predominantemente em ambientes próximos à vítima, muitas vezes praticada por parceiros, ex-parceiros, conhecidos ou familiares, o que aumenta o medo de retaliação e a sensação de vulnerabilidade. Essa realidade é reforçada por percepções sociais que ainda culpabilizam a vítima ou minimizam a gravidade do crime, reforçando barreiras adicionais para que as mulheres saiam do silêncio e busquem ajuda.
Especialistas ressaltam que a combinação de medo, estigma, estruturas sociais patriarcais e falhas nos sistemas de proteção e Justiça cria um ciclo de impunidade que perpetua a violência. Combater esses fatores exige não apenas políticas públicas eficazes e rede de apoio qualificada, mas também uma mudança cultural que valorize a voz das vítimas, encoraje a denúncia e ofereça proteção real àquelas que decidem romper o silêncio.
Enfrentar o medo de denunciar é um passo essencial não apenas para a responsabilização dos agressores, mas também para a garantia de dignidade, segurança e direitos fundamentais a milhões de mulheres em todo o mundo.