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Elas sustentam a festa e a economia também

Do Carnaval à rotina das praças, elas mantêm a economia viva.

 O Carnaval é a maior festa popular do Brasil. Em cidades como Salvador, Recife e Rio de Janeiro, a festa movimenta bilhões de reais, gera milhares de empregos temporários e transforma as ruas em grandes palcos de celebração. No Acre, guardadas as proporções, a lógica é a mesma. Carnaval, Expoacre, arraiais e grandes festas culturais representam, para muitos pequenos negócios, o período de maior faturamento do ano.

Mas é um erro enxergar essas mulheres apenas nos dias de festa. Elas não existem somente no Carnaval. Trabalham os 365 dias do ano. Estão nas praças, nos parques urbanos, nas portas de escolas, nos eventos comunitários e nas feiras de bairro. Sustentam a economia local muito além das grandes celebrações.

Quem mantém essa engrenagem funcionando na base são os ambulantes, sobretudo as mulheres.

A maioria é arrimo de família. Muitas são mães sozinhas. Muitas não têm rede de apoio e levam os filhos para o local de trabalho. Crianças fazem dever de casa entre caixas térmicas, brincam ao lado das barracas e, muitas vezes, dormem em cadeiras ou em espaços improvisados enquanto a mãe segue trabalhando até tarde. Essa cena não é exceção. É rotina. E não acontece apenas no Carnaval, mas ao longo de todo o ano.

Elas vendem água, churrasquinho, pipoca e churros. Algumas começam vendendo produtos de terceiros, dividindo lucro, até conseguirem juntar dinheiro suficiente para comprar o próprio carrinho e conquistar autonomia. O objetivo é ter sua própria estrutura, depender do próprio esforço e garantir renda com dignidade todos os dias.

A história de Sandra Roberta, de 37 anos, revela como essa realidade atravessa gerações. Ela vem de uma família de ambulantes. Os avós vendiam tacacá na Praça da Revolução, em Rio Branco. O carrinho passou para a mãe e, da mãe, chegou às filhas. Hoje, Sandra e a irmã ajudam a sustentar a base da família com o que aprenderam desde pequenas. A mãe vende churros. A irmã trabalha com pipoca em carrinho próprio, presente nas praças e nos parques urbanos. Não se trata de atividade eventual ligada apenas às grandes festas. É uma geração inteira que construiu sustento a partir da rua como espaço legítimo e permanente de trabalho.

Sandra também aponta um caminho essencial: a organização coletiva. Quando os ambulantes se unem, ganham força para negociar melhores condições, buscar capacitação, reduzir custos, conquistar autonomia e ampliar sua representação. Organização significa voz. Significa deixar de ser invisível. Significa sair da lógica da sobrevivência isolada e construir força enquanto grupo.

Segundo dados do IBGE, milhões de brasileiros vivem na informalidade, e o comércio ambulante é uma das faces mais visíveis da economia popular. O Sebrae aponta que muitos microempreendedores iniciam sua trajetória em feiras e eventos antes de consolidar um ponto fixo. O Carnaval pode ampliar a renda, mas a sobrevivência acontece todos os dias do ano.

No Acre, ainda falta uma política pública permanente voltada aos ambulantes, com cadastro contínuo, capacitação estruturada, educação financeira, acesso facilitado ao microcrédito e canais formais de diálogo. Mas também é preciso reconhecer que o poder público sozinho não transforma essa realidade. Política pública nasce de demanda organizada, nasce de categoria fortalecida e nasce de diálogo.

Uma cidade que cresce, que se desenvolve, que atrai investimentos e realiza grandes eventos, precisa incluir quem já faz a economia girar na base. Não se trata apenas de autorizar barracas. Trata-se de reconhecer trabalhadores, apoiar trajetórias e fortalecer redes.

O desenvolvimento verdadeiro acontece quando o poder público cumpre seu papel e quando os próprios ambulantes se organizam para ocupar seu espaço de forma coletiva.

Elas já sustentam a festa. Já sustentam suas famílias. Já sustentam a economia local.

Que possam se enxergar como força coletiva, ampliar sua organização e conquistar cada vez mais autonomia. E que a cidade que está se desenvolvendo seja grande o suficiente para crescer com elas, valorizando quem trabalha todos os dias para manter a economia viva.

 

Lidianne Cabral

Escreve semanalmente no Alerta Cidade sobre mulheres, economia e empreendedorismo feminino. É articuladora de redes, empreendedora, palestrante e Presidente da Associação de Mulheres Empreendedoras Elas Fazem Acontecer Acre.