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Mês de março: homenagem à mulher não é sobre flores

Entre homenagens simbólicas e discursos prontos, mulheres seguem enfrentando uma epidemia de violência que exige estratégia, responsabilização e ação suprapartidária.

 
Março chega pintado de lilás, acompanhado de campanhas publicitárias, homenagens protocolares e flores distribuídas como se simbolismo fosse suficiente para reparar desigualdades históricas.

Mas o Dia Internacional da Mulher não nasceu para ser comemorado. Nasceu da luta. Foi consolidado a partir da mobilização de mulheres trabalhadoras no início do século XX e da proposta de Clara Zetkin, em 1910, para que houvesse um dia internacional de reivindicação por direitos.

O que fizemos com essa história?

Transformamos em data comercial.
Em postagem pronta.
Em homenagem protocolar.

Enquanto isso, o mês começa com mais um caso brutal de violência: uma jovem vítima de estupro coletivo, com suspeitos ainda foragidos. A repetição dessas notícias escancara que não estamos diante de casos isolados, mas de uma epidemia de violência contra mulheres e meninas.

O Brasil convive há anos com índices alarmantes de feminicídio. São vidas interrompidas, famílias devastadas, comunidades feridas. O que vivemos é uma crise humanitária silenciosa de silenciamento, agressão e morte.

Estamos cansadas de entregar flores nos caixões das mulheres. As mulheres não têm descanso, nem quando morrem.

Não queremos ser lembradas depois que morremos. Queremos viver.

E viver exige estratégia, mobilização e política pública estruturada.

Precisamos de escritórios de crise nos estados com maiores índices de feminicídio e violência contra as mulheres. Estruturas permanentes, com resposta rápida, acolhimento psicológico, jurídico e social, integradas à segurança pública e à rede de proteção.

Experiências internacionais mostram que é possível avançar quando há decisão política. A Espanha implementou tribunais especializados em violência de gênero e sistemas integrados de monitoramento de risco. A França estruturou planos nacionais com orçamento específico e acompanhamento sistemático de agressores.

O Brasil precisa tratar a violência contra a mulher como emergência nacional.

Recentemente, no Acre, a mobilização social demonstrou que a articulação dá resultado. A presença do ex-goleiro Bruno Fernandes, condenado pela Justiça pelo feminicídio de Eliza Samudio, gerou reação da sociedade civil, de movimentos de mulheres, do Levante Feminista no Acre, de patrocinadores e de setores do poder público. A pressão organizada resultou em posicionamentos institucionais e afastamento do cenário esportivo local.

Isso mostra que, quando sociedade civil, movimentos de mulheres, governo e setor privado atuam juntos, há consequência.

Movimento de mulheres não é clube da Luluzinha. É espaço político legítimo e precisa ser respeitado como tal.

Eu falo com causa própria.

Já fui vítima de violência doméstica. Vivi cárcere privado. Sofri violência psicológica, patrimonial e agressões físicas. Sofri ameaças de exposição pública. Vivi violência política de gênero quando fui candidata.

E isso aconteceu quando eu ocupava cargo político de liderança.

Ter informação, formação e ocupar posição de poder não nos blinda. A violência atravessa partidos, instituições e todas as camadas sociais.

O silêncio custa vidas.

Eu não escrevo para expor outras mulheres nem para revitimizá-las. Escrevo para romper o meu próprio silêncio. Porque romper o silêncio também é estratégia.

Mas também escrevo para dizer que foi dessa experiência que nasceu um coletivo. E hoje, a Associação Elas Fazem Acontecer Acre, que atua no estado do Acre, especialmente na capital Rio Branco, é fruto dessa travessia.

Já são mais de 700 mulheres de pequenos negócios formadas, apoiadas e fortalecidas. É uma experiência constante de dedicação, acolhimento, formação e geração de autonomia econômica.

O Elas Fazem Acontecer não é apenas um projeto. É rede. É apoio. É independência financeira como ferramenta de enfrentamento à violência. É desconstrução diária da rivalidade e da concorrência feminina que o sistema nos ensinou a reproduzir.

E eu posso dizer com serenidade: essa rede salvou a minha vida. E hoje me permite ajudar a salvar outras.

Romper violências também é construir autonomia. Educar também é proteger. Apoiar também é política pública viva.

Precisamos de mais mulheres nos espaços de liderança. Precisamos de mais mulheres na política e nos cargos de poder. Precisamos transformar presença em influência real.

Não queremos flores.
Queremos políticas públicas com orçamento.
Queremos responsabilização efetiva.
Queremos prevenção permanente.
Queremos viver.

Março não pode ser apenas mês de homenagem. Precisa ser mês de posicionamento.

Porque nenhuma mulher merece morrer.

 

Estamos cansadas de ver flores onde deveria haver justiça.

 

Lidianne Cabral

Educadora social, palestrante e articuladora de redes. Presidente da Associação de Mulheres Empreendedoras Elas Fazem Acontecer Acre e escreve semanalmente para o Alerta Cidade.