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Quanto custa para um jornalista lembrar aquilo que alguns políticos querem que seja esquecido? Hoje é Rosas, mas e amanhã?

A condenação recente do jornalista investigativo Leonildo Rosas pela Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Acre levanta um debate que vai muito além de um caso individual. Trata-se de um episódio que toca diretamente em um dos pilares de qualquer sociedade democrática: a liberdade de imprensa. Quando um profissional da comunicação é penalizado por exercer o papel de resgatar fatos do passado e contextualizá-los no presente, o que está em discussão não é apenas o destino de um jornalista, mas o espaço que ainda resta para o exercício pleno do jornalismo investigativo.

Leonildo Rosas é um dos nomes mais antigos da comunicação no Acre. Ao longo dos anos construiu uma trajetória marcada por posicionamentos firmes, críticas contundentes e análises próprias sobre acontecimentos políticos e sociais. Seu perfil sempre foi o de um jornalista que observa, questiona e expõe sua visão sobre os fatos. Esse tipo de postura, por natureza, incomoda. O jornalismo investigativo raramente é confortável para quem ocupa posições de poder ou para aqueles que preferem que determinados acontecimentos permaneçam esquecidos.

Resgatar a memória é parte essencial da atividade jornalística. Sociedades que deixam de lembrar o que ocorreu no passado acabam condenadas a repetir erros que poderiam ter sido evitados. A história do Brasil oferece exemplos claros disso. Durante o período do regime militar, muitos dos abusos cometidos só vieram à tona porque jornalistas tiveram coragem de registrar, denunciar e preservar documentos e relatos sobre o que estava acontecendo. Se não fosse esse esforço, talvez hoje não existissem registros suficientes para que a sociedade pudesse compreender e condenar civil, social e politicamente aquelas práticas.

Por isso, a situação vivida por Leonildo Rosas desperta preocupação. Quando decisões judiciais passam a atingir diretamente o trabalho de jornalistas que atuam no campo investigativo, surge um sinal de alerta. A liberdade de imprensa não é um privilégio concedido a profissionais da comunicação. Ela é um direito constitucional que existe para garantir que a sociedade tenha acesso à informação, à crítica e ao debate público.

É evidente que o jornalismo também deve responder por excessos quando eles acontecem. Nenhuma atividade está acima da lei. No entanto, quando a atuação jornalística voltada à análise crítica e à recuperação de fatos históricos passa a ser tratada como crime, o risco é criar um ambiente de intimidação que desencoraja investigações, reportagens e opiniões mais contundentes.

O caso de Leonildo Rosas acaba se tornando simbólico. Ele representa um alerta para jornalistas do Acre, da Amazônia e do Brasil. Se a liberdade de questionar, investigar e lembrar acontecimentos começa a ser limitada, abre-se espaço para um cenário em que o silêncio passa a ser mais seguro do que a informação. E uma sociedade que troca informação por silêncio inevitavelmente perde em transparência, responsabilidade pública e democracia.

Hoje o foco está sobre Rosas. Amanhã pode ser qualquer outro profissional da comunicação que resolva investigar ou comentar temas sensíveis. Quando isso acontece, a mensagem que se espalha é simples e preocupante: falar pode custar caro.

A imprensa livre não existe para agradar. Ela existe para questionar, registrar e preservar a memória coletiva. Sem esse trabalho constante, fatos incômodos desaparecem, responsabilidades se diluem e versões convenientes da história passam a ocupar o lugar da verdade.

Se a sociedade aceitar que vozes críticas sejam gradualmente silenciadas, o resultado será um espaço público cada vez mais vazio de debate e cada vez mais confortável para aqueles que preferem que determinados episódios jamais sejam lembrados. E quando a memória desaparece, o caminho fica pavimentado para que velhos erros retornem com novas máscaras.