Na semana passada, falamos sobre qualidade de vida. Falamos sobre descanso, sobre o direito de pausar. Mas existe uma contradição que precisa ser dita: mulheres não descansam, porque seus corpos seguem em permanente vigilância.
E essa vigilância não é abstrata. Ela tem consequência. Ela adoece.
O controle sobre o corpo feminino não acontece apenas na violência explícita. Ele se instala no cotidiano, nas exigências silenciosas, nos padrões que dizem como devemos ser: o corpo ideal, a magreza extrema, a juventude constante, a estética impecável. Um modelo inalcançável, que não foi criado para ser atingido, mas para manter mulheres em estado contínuo de inadequação.
O corpo da mulher deixa de ser apenas corpo. Ele passa a ser um território controlado, um espaço onde se projetam expectativas, cobranças e julgamentos. Um território onde o nosso jeito de existir é constantemente questionado.
E viver sob esse controle tem custo.
O Brasil enfrenta um crescimento preocupante nos índices de sofrimento emocional. Entre jovens, esse cenário já aparece como uma das principais causas de adoecimento, com impactos cada vez mais visíveis na vida cotidiana. Entre mulheres, os dados mostram um nível ainda mais elevado de desgaste emocional, diretamente relacionado à pressão social, à sobrecarga e às exigências constantes sobre seus corpos e comportamentos.
A relação entre corpo, autoestima e saúde mental é direta.
Pesquisas recentes indicam que grande parte da população relata algum nível de sofrimento emocional, especialmente entre jovens. O uso intenso de redes sociais aparece como um fator relevante nesse cenário, associado ao aumento da ansiedade, da insatisfação com a própria imagem e da sensação de não pertencimento.
Corpos editados.
Rotinas irreais.
Vidas filtradas.
Uma estética que não representa a vida, mas que passa a ser tratada como meta.
Essa exposição constante cria um ambiente de comparação permanente. E a comparação não é neutra: ela constrói inadequação, fragiliza a autoestima e empurra muitas mulheres para ciclos de autocobrança, distorção de imagem e sofrimento emocional profundo.
A pressão estética se tornou um fator de risco para a saúde emocional.
Estudos apontam que o uso excessivo das redes pode intensificar sentimentos de insuficiência, especialmente entre jovens, ampliando quadros de ansiedade e tristeza persistente. Em contextos mais intensos, esse sofrimento pode levar ao esgotamento emocional e à perda de sentido sobre si mesma.
E, por trás desses números, existe algo em comum: a sensação de não ser suficiente.
Enquanto isso, seguimos sendo ensinadas a sorrir, a performar, a parecer bem.
Essa vigilância não acontece por acaso. Ela é sustentada por discursos, padrões e influências. Influenciadores que vendem uma vida perfeita, muitas vezes distante da realidade, reforçam essa lógica. Não se trata de responsabilizar indivíduos, mas de questionar um sistema que transforma aparência em valor e engajamento em validação.
No Acre, essa contradição também se faz presente.
Vivemos realidades complexas, enfrentamos desafios concretos, mas seguimos atravessadas por uma estética padronizada, distante das nossas vivências amazônicas. Enquanto muitas mulheres lutam por renda, dignidade e segurança, ainda são cobradas por corpos que não contam suas histórias.
E é nesse ponto que essa discussão se conecta com outra violência, ainda mais dura.
O recente caso envolvendo um policial que tirou a vida da própria companheira, também policial, nos atravessa e nos alerta. Não se trata de um fato isolado, mas de uma expressão de um sistema que controla, vigia e tenta possuir.
O mesmo sistema que define como um corpo deve ser também sustenta relações de poder sobre esse corpo.
Quando falamos de objetificação, falamos da transformação da mulher em objeto, seja de desejo, seja de controle. E toda vez que um corpo é reduzido a isso, sua autonomia é ameaçada.
Por isso, essa discussão não é sobre estética.
É sobre poder.
É sobre autonomia.
É sobre liberdade.
É sobre quem define o valor das mulheres.
É sobre quem lucra com a insegurança feminina.
É sobre quem se beneficia quando mulheres estão ocupadas tentando se encaixar, em vez de questionar.
Mas há movimento.
Cada vez mais mulheres estão rompendo com esses padrões. Estão questionando filtros, recusando violências disfarçadas de cuidado e reconstruindo suas relações com o próprio corpo.
Não é um caminho simples. Exige coragem. Exige consciência.
Porque romper com a vigilância também é reivindicar o corpo como ele é: vivo, real, diverso, atravessado por histórias.
Não queremos corpos perfeitos.
Queremos corpos livres.
Não queremos aprovação.
Queremos respeito.
E, acima de tudo, queremos viver em um mundo onde existir não seja, todos os dias, um esforço exaustivo.
Essas discussões não podem existir apenas no mês de março.
Elas não podem ser lembradas apenas no mês da mulher, como se fossem pautas sazonais, como se bastasse um período de sensibilização para dar conta de uma realidade tão profunda.
As questões que envolvem o corpo das mulheres, a autonomia, a liberdade e a própria vida são enfrentadas todos os dias.
São batalhas diárias, silenciosas e, muitas vezes, solitárias.
E só quem vive essa pressão constante, só quem sente no corpo essa vigilância, sabe o quanto ela pesa, o quanto ela marca e o quanto ela limita.
Março é importante. É tempo de visibilidade, de debate, de enfrentamento.
Mas não pode ser o único momento.
Até porque, mesmo nesse mês, seguimos vendo mulheres perderem suas vidas. Seguimos vendo histórias interrompidas, famílias atravessadas pela dor e uma violência que insiste em permanecer.
Por isso, essa pauta precisa atravessar o ano inteiro.
Precisa ser lembrada em todos os dias.
Precisa ser enfrentada com seriedade, com compromisso e com urgência.
Porque a vida das mulheres não pode esperar calendário.
Lidianne Cabral
Educadora social, articuladora de redes de empreendedorismo feminino há 20 anos,
presidente da Associação Elas Fazem Acontecer Acre e autora de artigos semanais sobre mulheres, economia e rede empreendedora no Acre e na Amazônia.


