Por Germano Marino
O Brasil convive, há anos, com uma tragédia persistente: o assassinato de jovens. Em muitos casos, são adolescentes e jovens adultos cooptados por facções criminosas e inseridos em uma engrenagem que combina exclusão social, violência e ausência do Estado. No Acre, esse cenário assume contornos ainda mais graves.
Em 2023, o país registrou 45.747 homicídios, uma taxa de 21,2 mortes por 100 mil habitantes. Embora seja o menor índice da última década, o número segue elevado e revela um dado central: a juventude permanece como principal vítima. Nos últimos anos, mais de 300 mil jovens foram assassinados no Brasil, o equivalente a cerca de cinco mortes por hora.
Entre crianças e adolescentes, a situação também é alarmante: mais de 5 mil são mortos anualmente, cerca de 14 por dia. A faixa etária mais atingida é a de 15 a 19 anos, justamente o período em que se encerra a proteção mais direta das políticas públicas voltadas à infância.
Outro dado relevante ajuda a desmontar discursos simplistas: menos de 0,5% dos adolescentes brasileiros estão envolvidos em atos infracionais. Ou seja, a juventude não é protagonista da violência, mas sua principal vítima.
Esse fenômeno tem um perfil definido: jovens, negros, periféricos e pobres. No Brasil, a maioria das vítimas de homicídio entre jovens é composta por homens, negros e moradores de periferias. Em alguns levantamentos, mais de 80% são negros. Trata-se de um padrão que evidencia a presença do racismo estrutural, associado à pobreza e à desigualdade histórica.
No Acre, essa realidade se repete. Jovens das periferias, em sua maioria negros e de baixa renda, são os mais expostos à violência letal. A ausência de oportunidades, somada à presença crescente das facções, cria um ambiente de alta vulnerabilidade.
O país avançou na proteção da infância. O Estatuto da Criança e do Adolescente consolidou direitos e orientou políticas públicas nas áreas de educação, saúde e assistência social. No entanto, há uma ruptura evidente na passagem para a juventude.
Quando a criança cresce, o cuidado enfraquece.
Na transição para a vida adulta, surgem desafios: desemprego, evasão escolar, falta de perspectiva e ausência de políticas específicas. O jovem deixa de ser prioridade. É nesse vazio que o crime organizado se fortalece.
As facções oferecem renda, pertencimento e identidade. Em territórios marcados pela ausência do Estado, essas estruturas ocupam o espaço deixado pelas políticas públicas.
Nos últimos anos, um novo elemento tem ampliado esse poder de cooptação: as redes sociais. Plataformas digitais passaram a ser utilizadas como vitrines do crime, onde jovens são expostos a narrativas de poder, consumo e pertencimento. A ostentação, a promessa de ganhos rápidos e o reconhecimento simbólico funcionam como mecanismos de atração.
Na prática, isso ocorre de forma simples e direta: vídeos curtos mostram jovens exibindo dinheiro, motos, armas e uma vida aparentemente fácil, acompanhados de músicas e mensagens que exaltam o poder das facções. Em grupos fechados e conversas privadas, surgem convites, oportunidades e promessas de renda rápida. Para um jovem sem perspectiva, esse conteúdo não é apenas entretenimento: é um chamado.
Sem mediação crítica, muitos adolescentes e jovens tornam-se ainda mais vulneráveis a esse recrutamento, que agora ocorre também no ambiente virtual, de forma silenciosa e contínua.
A violência, porém, não se limita aos homicídios.
A morte ou o envolvimento de um jovem com o crime não atinge apenas um indivíduo. Ela atinge famílias inteiras. Mães que enterram seus filhos, pais que carregam a culpa e o silêncio, irmãos que crescem marcados pela ausência e pelo medo. Em muitos casos, essas famílias também entram em um ciclo de sofrimento, adoecimento mental e vulnerabilidade social. O Estado não apenas falha com o jovem: ele também abandona quem fica.
Entre os jovens que sobrevivem, cresce o uso abusivo de drogas, a dependência química e o envolvimento com redes de exploração. Esse cenário está diretamente ligado ao agravamento da saúde mental. Quadros de ansiedade, depressão e sofrimento psíquico se tornam frequentes, sem que haja acesso adequado a serviços de cuidado.
O problema das drogas, nesse contexto, deve ser compreendido também como uma questão de saúde pública. O consumo e a dependência muitas vezes refletem trajetórias marcadas por abandono, violência e ausência de oportunidades.
No Acre, a combinação de fatores como vulnerabilidade social, rotas do tráfico e baixa cobertura de políticas para juventude intensifica esse quadro. Jovens são recrutados mais cedo e, muitas vezes, mortos em um curto espaço de tempo.
Há, portanto, uma contradição evidente: o Estado investe na infância, mas falha em garantir continuidade na juventude.
Recursos aplicados nos primeiros anos de vida perdem efetividade quando não há políticas que assegurem oportunidades na fase seguinte. O resultado é a interrupção de trajetórias e o aumento da exposição à violência.
O enfrentamento desse problema exige mais do que ações de segurança pública. É necessário ampliar políticas voltadas à juventude: emprego, qualificação profissional, cultura, esporte e inclusão social.
Também é fundamental fortalecer a rede de atenção à saúde mental e tratar o tema das drogas com abordagem integrada, que vá além da repressão.
Por fim, é indispensável enfrentar o racismo estrutural, que define, em grande medida, quem são as principais vítimas da violência no país.
A morte de jovens no Brasil não é aleatória: ela reflete escolhas históricas, desigualdades persistentes e a ausência de políticas contínuas.
Se não houver mudança de rumo, o país seguirá perdendo uma geração inteira.
E, com ela, parte significativa do seu futuro.


