“Eu nunca imaginei escrever um livro, tampouco um livro sobre mim.”
A frase está logo no prefácio de Morrer para Viver, obra escrita por Roger Augusto Onofre Barbosa, formado em Direito e pós-graduado em Direito Penal e Processo Penal. O livro nasceu anos depois do acidente que o deixou tetraplégico, mas a primeira ideia surgiu ainda em um leito hospitalar, pouco tempo após ele deixar a Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Roger lembra que ainda estava na fase mais crítica da recuperação. A voz não saía por causa da traqueostomia e os pensamentos se misturavam entre tentativas de entender o que havia acontecido.
“Quando tudo começou a se encaixar, foi quando aconteceu o acidente”, contou.
A conversa que mudou o rumo da história aconteceu dentro do hospital, ao lado do irmão. O assunto chegou até livros. Roger já vinha pensando sobre isso silenciosamente.
“Vou escrever um livro.”
O título veio no mesmo instante.
“Morrer para Viver.”
Naquele momento, porém, o livro ainda era apenas uma ideia. Após retornar para casa, ele tentou começar a escrever, mas não conseguiu avançar.
“Escrevi acho umas três ou quatro linhas e gaveta.”
O motivo, segundo ele, só ficou claro anos depois.
“Como é que eu ia compartilhar algo que eu ainda não tinha vivido? Como é que eu ia contar uma coisa que eu ainda não tinha sentido?”
O acidente
O acidente aconteceu em 24 de dezembro de 2017, na colônia do pai, durante uma confraternização de família. Um dia antes, eles haviam concluído uma construção na propriedade rural. Roger planejava retomar os estudos e já havia feito a rematrícula no curso de Direito.
“Eu tinha destrancado o curso. Iniciaria em fevereiro.”
Na tarde de Natal, após o almoço, familiares seguiram para um açude da propriedade. Mais tarde, ele decidiu entrar em outro açude, mais próximo da casa.
“Saí correndo em direção ao açude, pulei do trapiche.”
O mergulho terminou em silêncio.
“No que eu pulei, bati a cabeça no fundo do açude.”
O impacto provocou uma grave lesão cervical.
“Eu senti um choque no corpo todo. E imediatamente soube que tinha quebrado o pescoço.”
Sem conseguir mover o corpo, permaneceu submerso até perder a consciência. A sequência do que aconteceu foi reconstruída depois, a partir dos relatos da família.
O sobrinho estranhou a demora para ele voltar à superfície. A mãe foi até o açude e percebeu a gravidade da situação. Roger foi retirado da água pelo irmão. A família iniciou manobras de ressuscitação ainda no local.
“A minha mãe fazia respiração boca a boca e o meu irmão fazia as massagens cardíacas.”
Segundo relatos dos familiares, ele já apresentava sinais críticos pela falta de oxigenação.
A ambulância foi acionada, mas o acesso à propriedade rural se tornou difícil por causa da chuva intensa. A família decidiu improvisar o transporte até a rodovia.
“Minha mãe foi segurando a minha cabeça para não mexer o pescoço.”
O diagnóstico recebido no hospital foi devastador.
“O médico dizia que a minha lesão era incompatível com a vida.”
Segundo Roger, a expectativa médica era de que, caso sobrevivesse, dependeria permanentemente de aparelhos respiratórios e teria movimentos extremamente limitados.
Meses entre infecções, respirador e muitas incerteza
A sobrevivência ao acidente não encerrou a luta. Roger passou cinco meses internado. Durante quatro meses, dependeu de ventilação mecânica para respirar.
No período hospitalar, enfrentou pneumonia grave, atelectasia pulmonar e infecções severas.
“Eu tomei tanto antibiótico que adquiri resistência.”
Em um dos momentos mais críticos, desenvolveu uma infecção urinária que evoluiu para choque séptico.
“A pressão caiu para quatro.”
O quadro exigiu nova ida ao centro cirúrgico para implantação de acesso intraclavicular. Além disso, surgiu outra preocupação: conseguir o antibiótico necessário para combater a bactéria.
“O antibiótico custava mais ou menos três mil a quatro mil reais a dose.”
Segundo ele, foram necessárias 14 doses do medicamento, obtidas gradualmente por meio de mobilização entre familiares, amigos e colegas da mãe.
A saída do ventilador também surpreendeu.
“Eles nunca acreditaram que eu fosse sair da ventilação.”
Roger conta que o desmame aconteceu durante a madrugada. Sentindo dificuldade para respirar, pediu à mãe que retirasse a conexão do aparelho.
“Quando ela tirou a mangueira do ventilador, eu dei uma respirada funda e não voltei mais para o ventilador.”
Poucos dias depois, voltou a falar.
“Quatro meses sem falar. Eu queria descontar tudo.”
Aprender a viver novamente
Depois da alta hospitalar, a rotina precisou ser completamente reorganizada. Procedimentos diários passaram a fazer parte da vida da família, principalmente da mãe, que assumiu os cuidados mais delicados.
“Minha mãe principalmente. Ela já tinha prática de cuidar de paciente.”

Roger também iniciou acompanhamento na Rede Sarah, em Brasília. A expectativa inicial era diferente do que encontrou.
“Na minha cabeça, eu ia chegar lá, fazer uma cirurgia e voltar a andar.”
O trabalho desenvolvido no hospital seguia outra direção: ensinar pacientes a lidar com a nova condição física.
“Eles ensinaram a gente a viver naquela situação.”
As orientações envolviam adaptações, movimentação da cadeira, transferências, alimentação, higiene e atividades diárias. O acompanhamento continua até hoje.
“Todo ano eu vou pelo menos duas vezes.”

O retorno ao curso de Direito
Em 2019, Roger decidiu retomar a graduação em Direito. A mudança da grade curricular fez com que várias disciplinas precisassem ser refeitas.
“No primeiro período eu estava com medo.”
As adaptações incluíram acompanhamento durante provas, realização de atividades em salas específicas e apoio dos colegas, que compartilhavam anotações e materiais.
“Quando vi meu primeiro boletim, falei: isso não sou eu não.”
Vieram notas altas, a conclusão do curso e a escolha para ser orador da turma.
“A minha candidatura foi compulsória. Eles queriam que eu fosse o orador.”
Após concluir a graduação, Roger fez pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal. Atualmente também cursa especialização em Inteligência Artificial.

O livro
Embora inspirado em fatos reais, Morrer para Viver não segue o formato clássico de autobiografia. Roger criou personagens fictícios e substituiu os nomes das pessoas envolvidas.
O protagonista da obra recebeu o nome de Milo.
“Tudo o que aconteceu é real. Os nomes, não.”
A escrita foi feita inteiramente pelo celular.
“Eu uso só o polegar da mão esquerda, letra por letra.”
Antes de concluir Morrer para Viver, Roger publicou outro livro: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça: Lições Eternas de Jesus, baseado em estudos bíblicos e anotações feitas ao longo da leitura das parábolas.

Lançamento
Roger já recebeu alguns exemplares de Morrer para Viver e agora organiza o lançamento da obra. A intenção é realizar o evento em uma igreja, em data ainda a ser confirmada.
“Tudo indica que vai ser no mês de junho deste ano de 2026.”
“Bem-vindo à chance de deixar Deus reescrever a sua história também”
Ao comentar o que espera transmitir aos leitores, Roger afirma que não considera o livro apenas um relato pessoal.
“É mais que uma história, é um testemunho.”
A fé aparece em praticamente todos os capítulos da conversa. Ele afirma que sempre pede a Deus que sua vida possa alcançar outras pessoas.
“Que o Senhor seja conhecido através do meu testemunho.”
Segundo ele, o encerramento do prefácio resume o que ele espera provocar em quem abrir o livro.
“Bem-vindo à minha história. Mas, mais do que isso, bem-vindo à chance de deixar Deus reescrever a sua também.”


