Rio Branco, AC, 11 de junho de 2026 13:58

O jogo além da bola: futebol, política e a construção de barreiras sociais

No dito país da liberdade, onde será sediado o maior evento esportivo do mundo, o que foi visto foram cenas lamentáveis que não transmitem o espírito do esporte nem a grandiosidade da Copa do Mundo. Seleções do continente africano, como Senegal, foram revistadas ao chegar ao aeroporto; houve ainda um interrogatório de sete horas com um jogador do Irã. Além disso, a seleção iraniana sequer poderá dormir nos Estados Unidos durante seus jogos, o que desgasta ainda mais os atletas. Nem mesmo o melhor árbitro da Somália teve permissão para permanecer na Copa.

E no que isso afeta as seleções que passaram por essas situações, no mínimo, desumanas? O desempenho esportivo depende de diversos fatores, tanto dentro quanto fora de campo, e um fator extremamente importante é o treinamento e o entrosamento da equipe. Isso vale tanto para que os jogadores se entendam dentro de campo quanto para que as táticas sejam trabalhadas. Sendo assim, seria uma enorme desvantagem não poder treinar, não é? Pois é exatamente isso que a seleção do Irã está enfrentando: os jogadores têm que correr em volta da piscina porque não foi disponibilizado um local adequado para sua preparação, afetando não apenas os treinos, mas também o espírito de equipe.

E o que dizer quando você tem a sensação de que é odiado em um lugar? Quando as pessoas fazem questão de que você se sinta mal? Imagine ser praticamente acusado de algo que não fez. Isso certamente afetaria seu desempenho, certo? Foi exatamente isso que a seleção de Senegal enfrentou. Todos os jogadores foram revistados ao desembarcar do avião, em um constrangimento sem igual, enquanto outras seleções entraram livremente, mesmo trazendo grandes cargas. A seleção da Noruega, por exemplo, trouxe 300 quilos de peixe. Esse sentimento de “eu não deveria estar aqui” pode gerar diversos conflitos internos, como ansiedade e insegurança, capazes de prejudicar o desempenho em campo. Assim, os jogos passam a acontecer também fora dos 90 minutos, e o futebol acaba se tornando palco de opressão.

E algo que poderia unir toda uma nação em honra e glória, como símbolo de luta e resistência, também foi retirado por decisão da Fifa. O Haiti teve que mudar sua camisa às vésperas da Copa apenas por ousar ter orgulho de sua própria história. A Copa, imitando a vida, nos mostra que os jogos não acontecem apenas dentro de campo.

Sobre o autor:

Hanrry Luís é psicólogo clínico, especialista em transtornos ansiosos e alimentares, com 4 anos de experiência clínica. Atua na prática baseada em evidências, integrando conhecimento científico ao raciocínio clínico e à experiência prática

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