Rio Branco, AC, 28 de julho de 2026 09:26

A violência não pode ser o legado do esporte: a terceira e última reflexão de uma série necessária

Este é o terceiro e último artigo de uma série de reflexões iniciada pelo jornalista George Naylor, que nasceu da preocupação com o crescimento de episódios de violência dentro das competições esportivas. Na primeira publicação, discutimos a agressão brutal de uma jogadora de futsal contra uma adversária no Ceará. Na segunda, analisamos o caso do atleta que agrediu um árbitro durante a final de um campeonato municipal na Bahia. Agora, um novo episódio envolvendo adolescentes demonstra que o problema já alcança categorias de base, tornando o debate ainda mais urgente.

A partida da categoria Sub-17 da Copa Integração de Futebol de Campo, disputada em Palmas, ganhou repercussão nacional após um vídeo mostrar um jogador agredindo um adversário durante o confronto entre Flapalmas e União EC. As imagens, registradas pelo fotógrafo esportivo Gabriel Dante, rapidamente se espalharam pelas redes sociais e ultrapassaram a marca de um milhão de visualizações.

O que mais preocupa neste episódio não é apenas a violência em si, mas a idade dos envolvidos. Quando adolescentes reproduzem esse tipo de comportamento dentro de campo, fica evidente que estamos diante de um problema que ultrapassa o esporte. Estamos falando da formação de cidadãos.

O esporte de base deveria ser o ambiente onde jovens aprendem a competir com respeito, a conviver com derrotas, a controlar emoções e a reconhecer a autoridade das regras. Em vez disso, episódios como esse revelam que muitos atletas chegam às competições sem preparo emocional para lidar com a frustração e a pressão inerentes ao jogo.

É evidente que a responsabilidade não recai exclusivamente sobre os jovens. Famílias, treinadores, dirigentes, torcidas e organizadores também exercem influência direta na construção da cultura esportiva. Quando pais incentivam atitudes agressivas, quando técnicos valorizam a vitória acima dos valores e quando torcedores transformam rivais em inimigos, cria-se um ambiente propício para que a violência seja vista como uma resposta aceitável.

Os três episódios abordados nesta série possuem contextos diferentes, mas carregam a mesma essência. No Ceará, uma atleta agrediu uma adversária. Na Bahia, um jogador atacou um árbitro. Em Tocantins, um adolescente atingiu outro atleta em uma competição de base. Em comum, todos revelam a incapacidade de aceitar limites, decisões ou frustrações sem recorrer à agressão.

O esporte jamais será responsável pela violência. Pelo contrário, ele continua sendo uma das ferramentas mais poderosas para promover inclusão, cidadania e transformação social. Entretanto, quando seus valores são distorcidos, perde-se aquilo que o torna tão importante para a sociedade.

Mais do que aplicar punições, é necessário investir em educação esportiva. Projetos de formação precisam trabalhar inteligência emocional, respeito às diferenças, ética, disciplina e resolução pacífica de conflitos. A preparação de um atleta não pode se limitar ao condicionamento físico e ao aperfeiçoamento técnico. É preciso formar pessoas antes de formar campeões.

Ao concluir esta trilogia, permanece uma certeza: nenhuma partida, campeonato, troféu ou título possui valor suficiente para justificar um ato de violência. Quem entra em campo leva consigo muito mais do que um uniforme. Leva o nome da família, do clube, da comunidade e dos valores que escolheu representar.

Que os episódios aqui retratados não sejam lembrados apenas pelos vídeos que viralizaram ou pelas manchetes que ocuparam os noticiários. Que sirvam como um chamado para dirigentes, treinadores, atletas, famílias e torcedores compreenderem que o verdadeiro legado do esporte não é o placar final, mas o caráter que ele ajuda a construir.

Porque vitórias são passageiras. Títulos podem ser esquecidos. Mas o exemplo deixado dentro de campo permanecerá para sempre na memória de quem o presenciou. E esse exemplo precisa ser, acima de tudo, de respeito, dignidade e humanidade.

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