Rio Branco, AC, 18 de agosto de 2026 13:44

Polícia prende no Paraguai suspeito de comandar esquema de anabolizantes falsificados no Brasil

A polícia do Paraguai prendeu, em Ciudad del Este, na fronteira com Foz do Iguaçu (PR), Roberto Carlos Pereira de Carvalho, conhecido como “Jiraya”, apontado pelas investigações como um dos principais responsáveis por um esquema de produção e comercialização de anabolizantes falsificados que abastecia diferentes regiões do Brasil.

A investigação identificou laboratórios clandestinos em Brasília, João Pessoa e São Paulo. Segundo a polícia, os produtos eram comercializados pela internet, por meio de redes sociais, em lojas de suplementos alimentares e também em clínicas de estética.

De acordo com o delegado Rodrigo Carbone, Jiraya teria iniciado a atuação em laboratórios clandestinos em Brasília e posteriormente expandido as atividades para outros estados, até ser localizado no Paraguai.

Em uma conversa interceptada pela investigação, um dos sócios afirma que Roberto realizava vendas diariamente. Segundo o relato, o faturamento chegava a R$ 10 mil ou R$ 15 mil por dia, enquanto nos dias de menor movimento ficava entre R$ 4 mil e R$ 5 mil.

A operação conseguiu bloquear R$ 32 milhões em bens ligados ao grupo. Segundo Carbone, o valor pode aumentar devido à dimensão da organização investigada.

Laboratórios funcionavam em ambientes improvisados

As investigações avançaram a partir da apreensão de um celular, em fevereiro de 2025, em um apartamento de Taguatinga, no Distrito Federal. No imóvel, os policiais encontraram um laboratório improvisado e prenderam Carlos Henrique Rodrigues de Abreu.

Os áudios recuperados no aparelho ajudaram os investigadores a identificar detalhes sobre a fabricação dos produtos. Em uma das conversas, Jiraya afirma que Carlos utilizava materiais fornecidos por ele e que a entrega era feita por motoboys.

Segundo a polícia, os anabolizantes eram preparados em condições improvisadas, utilizando equipamentos como fogão e panela. Quando o produto não apresentava o resultado esperado, o material era reaproveitado.

Em uma das gravações, Carlos Henrique descreve o processo de dissolução dos produtos e relata ter precisado abrir 20 frascos para refazer o procedimento. Para o delegado Rodrigo Carbone, os diálogos evidenciam os riscos envolvidos na fabricação clandestina, principalmente pela ausência de controle adequado sobre a composição e a dosagem das substâncias.

Os produtos também recebiam embalagens e rótulos que simulavam uma origem internacional, numa tentativa de transmitir maior credibilidade aos consumidores.

As investigações apontam que parte da matéria-prima utilizada na fabricação entrava ilegalmente no Brasil pela fronteira com o Paraguai. Em um dos áudios analisados, Carlos Henrique explica que os materiais eram escondidos dentro de peças de motocicletas para dificultar a identificação durante o transporte.

Segundo a polícia, uma loja localizada em Ciudad del Este seria responsável pelo fornecimento dos insumos. Após a entrada no Brasil, os materiais passavam por Foz do Iguaçu, onde eram embalados e posteriormente distribuídos para diferentes regiões.

Seis pessoas foram presas em Foz do Iguaçu, entre elas a gerente da loja apontada como fornecedora dos materiais. O proprietário do estabelecimento é considerado foragido.

A polícia também prendeu pessoas suspeitas de atuarem como “laranjas” no esquema e André Luiz de Amorim Junqueira, apontado como suspeito de falsificar anabolizantes há pelo menos 13 anos. Conforme a investigação, ele teria ensinado a Carlos Henrique as fórmulas utilizadas na produção.

Depois de produzidos, os anabolizantes e outros produtos eram divulgados principalmente pelas redes sociais.

A investigação aponta Ana Luiza, descrita como influenciadora fitness, como uma das pessoas ligadas à divulgação dos produtos. Ela aparecia em vídeos promovendo os itens e associando o consumo deles a resultados físicos.

Segundo o delegado, Ana Luiza e Alam Manoel Lima ajudavam a ampliar a divulgação e as vendas por meio de perfis nas redes sociais. Em um dos áudios analisados, Alam afirma ter vendido cerca de R$ 80 mil por mês de um dos produtos comercializados pelo grupo.

De acordo com a polícia, o casal vendia pela internet produtos voltados ao emagrecimento e suplementos hormonais. Os itens também eram distribuídos por lojas de suplementos e clínicas de estética. Além dos anabolizantes, a investigação identificou a fabricação clandestina de produtos para emagrecimento.

Entre as substâncias mencionadas está o clembuterol. Em uma conversa, Carlos Henrique alerta sobre a necessidade de utilizar a substância em microgramas e não em miligramas, devido ao risco de uma dosagem elevada.

Segundo a polícia, a presença da substância não era informada aos consumidores. Um dos sócios relatou que uma cliente passou mal após consumir um dos produtos e apresentou falta de ar durante a madrugada.

O delegado Rodrigo Carbone afirmou que erros na dosagem poderiam provocar consequências graves, inclusive levar à morte.

Polícia apura possível lavagem de dinheiro

A investigação também apura a movimentação financeira do grupo e uma possível utilização de um restaurante para ocultar a origem dos recursos obtidos com a venda dos produtos.

Alam Manoel Lima e Ana Luiza mantinham um restaurante localizado a cerca de 25 quilômetros do centro de Brasília. Segundo a polícia, o estabelecimento poderia ter sido utilizado para movimentar ou ocultar valores provenientes do esquema.

A estrutura de entregas do restaurante também teria sido utilizada para distribuir produtos ilegais no Distrito Federal por meio de motoboys.

A Justiça foi acionada para bloquear R$ 5 milhões em bens de Alam Manoel e Ana Luiza. Para Roberto Carlos Pereira de Carvalho, o valor solicitado foi de R$ 6 milhões.

O presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Neuton Dornelas, alertou para os riscos do consumo de medicamentos e substâncias sem garantia de procedência.

Segundo o especialista, um dos principais problemas é a impossibilidade de o consumidor saber exatamente quais substâncias e concentrações estão presentes no produto.

Ele também afirmou que o uso inadequado dessas substâncias pode aumentar significativamente os riscos cardiovasculares e recomendou que produtos desse tipo não sejam utilizados sem acompanhamento médico e garantia de procedência.

Os investigados poderão responder por crimes como tráfico de drogas, organização criminosa, lavagem de dinheiro e falsificação de produto medicinal. Somadas, as penas podem ultrapassar 40 anos de prisão.

Segundo o delegado Rodrigo Carbone, a legislação prevê punições severas para a falsificação de anabolizantes, que, dependendo do enquadramento, pode ter tratamento penal mais grave do que o tráfico de drogas.

A defesa de Carlos Henrique Rodrigues de Abreu afirmou que ele é empresário do ramo de suplementos alimentares e que pretende esclarecer, durante o processo, a origem e a legalidade de suas atividades empresariais.

Até o momento, não houve contato com as defesas de Roberto Carlos Pereira de Carvalho, o “Jiraya”, Alam Manoel Lima e Ana Luiza de Nazaré Lima. Segundo as informações divulgadas na reportagem, Roberto Carlos Pereira de Carvalho e Alam Manoel Lima ainda não haviam constituído advogados.

Com informações do G1 Globo e do Fantástico.

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