Rio Branco, AC, 6 de setembro de 2026 01:16

Candidaturas de pessoas autistas crescem mais de cinco vezes nas eleições de 2026

Número de registros saltou de 13, em 2022, para 70 neste ano; especialistas apontam maior visibilidade da população autista e cobram compromisso efetivo com a inclusão

O número de pessoas que se declaram autistas entre os candidatos nas eleições gerais de 2026 cresceu mais de cinco vezes em relação ao pleito de 2022. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que os pedidos de registro passaram de 13 para 70 neste ano. O crescimento ocorre mesmo diante da redução no número geral de candidaturas, que caiu de 29.262, em 2022, para 20.829 em 2026. O número ainda pode sofrer alterações conforme a Justiça Eleitoral atualiza a base de dados.

Entre os 70 candidatos que declararam ser autistas, 39 disputam vagas para deputado estadual, enquanto 22 concorrem ao cargo de deputado federal. Outros cinco são candidatos à Câmara Legislativa do Distrito Federal, três disputam o cargo de vice-governador e um aparece como primeiro suplente.

O aumento das candidaturas acompanha também o crescimento da participação eleitoral de pessoas com deficiência. Ao todo, 524 candidatos declararam à Justiça Eleitoral possuir algum tipo de deficiência. Desse total, 208 informaram deficiência física, 112 visual, 59 auditiva e 145 foram classificados em outras categorias, que incluem o autismo.

No dia 4 de outubro, primeiro turno das eleições, esses candidatos disputarão os votos de aproximadamente 158,74 milhões de eleitores. Entre eles, cerca de 1,97 milhão possuem algum tipo de deficiência, número 42% superior ao registrado em 2022, quando eram aproximadamente 1,38 milhão.

Mais visibilidade para a população autista

Para a terapeuta e ativista Simone Alli Chair, presidenta da Associação Vozes Atípicas (AVA), o aumento das candidaturas está relacionado à maior visibilidade conquistada pela população autista e pelas pessoas com deficiência nos últimos anos.

Mãe de duas filhas autistas e militante há três décadas em defesa dos direitos das pessoas com deficiência, Simone avalia que os avanços na área do diagnóstico contribuíram para revelar uma parcela da população que anteriormente permanecia fora das estatísticas.

“Graças aos avanços da ciência, hoje são diagnosticados casos que, até há pouco tempo, não eram considerados. Isso não significa que o número de autistas, por exemplo, é maior, mas sim que, antes, os casos eram subnotificados”, pondera.

Segundo ela, a maior presença de pessoas autistas no debate público também tende a estimular o surgimento de novas candidaturas em diferentes níveis da política.

Representatividade e compromisso

O crescimento da participação política de pessoas autistas representa uma ampliação da presença desse grupo nos espaços de decisão. Para Simone, entretanto, o aumento da quantidade de candidatos não significa, necessariamente, que todos tenham compromisso efetivo com a pauta da inclusão.

A ativista afirma que, à medida que as questões relacionadas ao autismo e à deficiência ganham espaço na sociedade, também cresce o interesse de candidatos e políticos pelo segmento.

“Como o tema parece estar em alta, há cada vez mais candidatos e políticos tentando se aproximar do segmento”, afirma.

Simone, porém, faz um alerta: a aproximação com a população autista e com as pessoas com deficiência nem sempre é acompanhada de propostas concretas ou de um compromisso verdadeiro com a garantia de direitos.

Autismo e cidadania

De acordo com o Ministério da Saúde, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do desenvolvimento cerebral que pode afetar a comunicação, as interações sociais e os comportamentos. A manifestação ocorre de maneiras diferentes em cada pessoa, podendo variar de quadros que demandam pouco apoio até situações que exigem níveis mais elevados de suporte.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), da Associação Americana de Psiquiatria, classifica o autismo conforme os níveis de suporte necessários. Pessoas autistas que recebem os apoios adequados podem estudar, trabalhar, praticar atividades culturais e esportivas, viver de forma independente e exercer plenamente seus direitos de cidadania.

Nesse cenário, o aumento das candidaturas de pessoas que se declaram autistas representa não apenas uma mudança nos números eleitorais, mas também uma maior ocupação dos espaços políticos por um segmento historicamente pouco representado.

As eleições de 2026 deverão mostrar até que ponto essa maior visibilidade se traduzirá em representação efetiva e em políticas públicas voltadas às necessidades das pessoas autistas e de toda a população com deficiência.

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