Desfile da Matières Fécales levou diversidade, imigração e crítica social ao centro de um dos maiores eventos de moda do mundo
A Semana de Moda de Paris começou com uma quebra visível no padrão que por décadas dominou as passarelas de luxo. A Matières Fécales apresentou a coleção “The Ninety-Nine Percent” na Place de la République, reunindo modelos não brancos e transformando o desfile em uma crítica direta à concentração de poder, privilégio e representação dentro da própria indústria da moda.
Em vez de seguir a imagem tradicional de passarelas marcadas por um perfil restrito de beleza, a grife colocou no centro pessoas ligadas às experiências de imigração, periferia e diferentes origens culturais. Parte do elenco era formada por familiares, amigas(os) e colaboradoras(es) das(os) estilistas, reforçando a ideia de que aquelas pessoas não estavam ali apenas como escolha estética, mas como parte da narrativa do desfile.
A escolha da Place de la République também ajudou a reforçar o tom de manifesto. O espaço, historicamente associado a protestos e mobilizações populares em Paris, recebeu pela primeira vez um desfile da Semana de Moda. A apresentação foi dividida em três atos e abordou família, comunidade, religião e resistência.
A proposta dá continuidade à crítica que a Matières Fécales já vinha fazendo ao universo do luxo. Na temporada anterior, a marca havia satirizado o chamado “1%”, associado às elites econômicas. Desta vez, inverteu a lógica e direcionou o protagonismo a quem, segundo os próprios criadores, costuma ter menos espaço nesse ambiente.


