Rio Branco, AC, 29 de outubro de 2026 16:23

Foi ofendido na internet por causa de política? Veja por que isso ultrapassa o limite da opinião e o que a lei permite fazer

Imagine publicar uma opinião sobre política, como milhões de brasileiros fizeram nas últimas semanas. Minutos depois, ao abrir o celular, você encontra mensagens chamando você de burro, alienado, mau-caráter. Não uma crítica ao que você pensa, mas ataques a quem você é. Para muitas pessoas, esse cenário deixou de ser imaginação. Virou rotina.

Relatos assim se multiplicaram durante o período eleitoral. Pessoas comuns, que apenas manifestaram em quem votariam ou o que pensavam sobre determinado tema, passaram a receber comentários agressivos. Mensagens privadas questionavam sua inteligência, seu caráter, até sua capacidade como pais ou mães. Há quem tenha chorado ao ler o que recebeu. Há famílias que precisaram vir a público pedir respeito.

Esse comportamento não tem lado. Parte de pessoas de direita, de esquerda, de apoiadores de todos os candidatos. Muda a cor da bandeira, mas o ataque costuma ser o mesmo: desqualificar quem pensa diferente, como se discordar fosse uma ofensa pessoal.

Pensar diferente nunca foi problema. A democracia existe justamente porque as pessoas não concordam em tudo. O problema começa quando a discordância deixa de ser sobre ideias para se tornar ataque a pessoas. Criticar uma proposta, um governo ou um candidato faz parte do debate público. Chamar alguém de imbecil porque votou diferente, não.

A Constituição protege a liberdade de expressão, inclusive a crítica dura. A ironia também está protegida. Essa proteção, porém, não alcança a ofensa à honra de outra pessoa. A própria Constituição garante a inviolabilidade da honra e da imagem, assegurando indenização quando houver violação.

Na esfera criminal, o Código Penal prevê os chamados crimes contra a honra. Atribuir falsamente um crime a alguém pode configurar calúnia. Espalhar um fato que manche a reputação da pessoa pode configurar difamação. Xingar, humilhar ou ofender a dignidade de alguém pode configurar injúria. Quando esses crimes são cometidos ou divulgados nas redes sociais, a lei prevê que a pena pode ser aplicada em triplo.

Se a mensagem vier acompanhada de ameaça, o caso pode se enquadrar em outro crime. Quando os ataques se repetem de forma insistente, invadindo a vida da vítima, pode ainda configurar o crime de perseguição.

Além da área criminal, quem tem a honra atingida pode buscar na Justiça cível indenização por danos morais. Também é possível pedir a remoção do conteúdo ofensivo. Quando o autor usa perfil falso ou anônimo, cabe ainda solicitar judicialmente que a plataforma forneça dados capazes de identificá-lo, como prevê o Marco Civil da Internet.

Na prática, o primeiro passo é preservar as provas. Prints com data, horário, nome do perfil, endereço da publicação: tudo isso é fundamental, porque o agressor pode apagar o conteúdo depois. Em casos mais graves, a ata notarial, feita em cartório, dá ainda mais segurança à prova. Vale também registrar boletim de ocorrência, além de denunciar o conteúdo na própria plataforma.

Existe um prazo que pouca gente conhece. Nos crimes de calúnia, difamação ou injúria, em regra, a vítima tem seis meses, contados a partir do momento em que descobre quem é o autor, para dar início à ação penal. Passado esse período, o direito pode se perder.

Nem toda crítica, no entanto, é crime. Comentários ácidos, discordâncias firmes, até ironias sobre posições políticas fazem parte do debate. Em regra, estão protegidos pela liberdade de expressão. Cada caso precisa ser analisado com cuidado, considerando o contexto da mensagem.

Talvez a pergunta mais importante, porém, não seja jurídica. Em que momento passamos a enxergar quem pensa diferente como inimigo? Do outro lado da tela existe alguém com família, trabalho, sentimentos, histórias que não cabem em um voto. Uma mensagem escrita em segundos, no calor de uma discussão, pode acompanhar essa pessoa por dias.

As eleições passam. Os vizinhos, os colegas de trabalho, os amigos, os parentes continuam. Discordar é um direito de todos. Respeitar quem discorda é o que impede que a política, criada para organizar a vida em sociedade, acabe destruindo justamente as relações que fazem essa sociedade existir.

Compartilhe

Facebook
Twitter
WhatsApp