Rio Branco, AC, 31 de outubro de 2026 11:43

Não era feitiço: mulheres, conhecimento e resistência ao longo da história

Em torno do Halloween, a imagem da bruxa costuma aparecer entre fantasias e histórias de medo. Mas, por trás desse imaginário, existe uma memória real: a de mulheres perseguidas porque seus conhecimentos, sua autonomia ou seu modo de viver ameaçavam a ordem de seu tempo. Mulheres que cuidavam, partejavam, conheciam plantas, questionavam autoridades ou simplesmente não se encaixavam no lugar que lhes havia sido destinado. Não era feitiço, era conhecimento.

Entre os séculos XV e XVIII, diferentes regiões da Europa viveram perseguições judiciais por acusações de bruxaria. Milhares de pessoas foram executadas, e as mulheres formaram a maioria das vítimas. Não houve uma única causa: crenças religiosas, conflitos locais, interesses políticos, desigualdades e medos coletivos se misturaram. Não se pode chamar esse episódio de primeiro feminicídio da história. A violência contra mulheres é muito mais antiga, mas ele permanece como uma expressão brutal da perseguição e do controle sobre a vida feminina.

Essa história não ficou presa aos livros. Na Amazônia, no Acre e em tantos territórios do Brasil, mulheres seguem guardando conhecimentos essenciais à vida. Rezadeiras e benzedeiras acolhem por meio de práticas tradicionais; parteiras acompanham nascimentos; mulheres indígenas, quilombolas e ribeirinhas preservam línguas, sementes, memórias e formas próprias de cuidar da terra e das comunidades. São saberes diversos, construídos ao longo de gerações, que merecem respeito, não folclorização, desconfiança ou apagamento.

E quantas dessas mulheres seriam julgadas hoje por não corresponderem ao que esperam delas? A mulher que fala com firmeza, tem opinião própria, questiona, lidera, escolhe seu caminho ou não aceita ser diminuída ainda enfrenta tentativas de silenciamento. Às vezes, a perseguição não vem em forma de fogueira: aparece no deboche, na ameaça, na desqualificação de sua competência ou na cobrança para que seja sempre dócil, discreta e conveniente. Os tempos mudam; a disputa pela liberdade permanece.

Foi assim também na luta pelo voto. No Brasil, o direito de votar e ser votada foi reconhecido nacionalmente em 1932, depois de décadas de mobilização de mulheres que se organizaram e enfrentaram resistências. Não foi presente: foi conquista. Desde então, tantas outras mulheres abriram caminhos na política, na ciência, na educação, na cultura e no trabalho, muitas vezes precisando provar, repetidamente, que tinham o direito de estar ali.

Hoje, essa força também se revela nas mulheres que criam associações, coletivos, cooperativas e redes de apoio. Quando se unem para empreender, produzir cultura, defender direitos ou transformar seus territórios, elas fazem da experiência individual uma possibilidade coletiva. Uma mulher que abre caminho para outra muda mais do que a própria história: amplia o horizonte de todas que vêm depois.

As mulheres que amparam o mundo estão em toda parte. Estiveram nos hospitais e nos serviços essenciais durante a pandemia de COVID-19; estão nos laboratórios, desenvolvendo pesquisas e buscando respostas para proteger a vida. Estão nas salas de aula e nas universidades, produzindo conhecimento; nas aldeias, nos quilombos e nas comunidades, liderando, ensinando, cultivando e cuidando. Estão onde a vida precisa ser defendida e reinventada.

São mulheres que fazem o mundo respirar. Mulheres que parem o mundo, não apenas porque geram vidas, mas porque fazem nascer ideias, movimentos, vínculos, saberes e futuros. Essa força é fecunda: passa de geração em geração, transforma-se e encontra sempre um jeito de continuar. Não se interrompe aquilo que é movimento. E a mulher é movimento.

Resgatar essa história é lembrar de onde viemos, reconhecer quem abriu as portas e não permitir que a violência seja esquecida. Mas nossa história não termina na memória das perseguições. Ela segue daqui para a frente, nas meninas que descobrem sua voz, nas mulheres que ocupam espaços e nas redes que se formam para que ninguém precise caminhar sozinha.

Bruxas ou santas, feiticeiras ou mulheres de ciência, deem-nos o nome que quiserem. Continuaremos criando, cuidando, pensando, liderando e fazendo a sociedade existir. Não como coadjuvantes, mas como autoras do nosso tempo. Não era feitiço, era conhecimento. Não era ameaça, era liberdade. E é daqui para a frente: porque aquilo que faz a vida nascer não pode ser detido.

Referências para contextualização histórica

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. História do voto feminino no Brasil.

BEN-YEHUDA, Nachman. The European Witch Craze of the 14th to 17th Centuries: A Sociologist’s Perspective. American Journal of Sociology, v. 86, n. 1, 1980.

Lidianne Cabral

Educadora social, produtora cultural, comunicadora e presidente da Associação de Mulheres Empreendedoras Elas Fazem Acontecer. Colaboradora do Alerta Cidade.

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