A CPI do transporte público em Rio Branco revela o medo de investigar ou o medo do que vai aparecer?
Por: Ana Paula Melo
Rio Branco encerra mais uma semana discutindo o que já deveria ter sido resolvido há meses: a tão falada CPI do transporte público. O roteiro não muda: indignação popular, promessas políticas e, no final, um silêncio ensurdecedor vindo de quem tem a caneta na mão. Enquanto isso, uma nova licitação bilionária avança, como se o passado pudesse ser convenientemente varrido para debaixo do tapete ou, talvez, para debaixo do ônibus quebrado no meio do trajeto.
A pergunta que não quer calar continua ecoando nos pontos de ônibus lotados: os transtornos já vividos pela população vão cair no esquecimento? Ou alguém, em algum momento, será responsabilizado? A resposta, até agora, parece seguir o mesmo itinerário do transporte coletivo da capital: atrasada, incerta e, muitas vezes, inexistente.
Porque, no fim das contas, a conta sempre chega. Mas não para os grandes. Ela bate, sem piedade, na porta de quem acorda antes do sol nascer, enfrenta filas intermináveis, ônibus superlotados e veículos que quebram no meio do caminho, isso quando aparecem. Para o trabalhador, não existe mistério: o colapso já aconteceu faz tempo. O limite já foi ultrapassado, e ninguém precisou de CPI para perceber isso.
Na Câmara Municipal, o debate gira em círculos, como um ônibus sem rota definida. Assina ou não assina? Eis a questão. De sete assinaturas necessárias, apenas cinco deram as caras. Duas seguem desaparecidas , talvez aguardando o momento “politicamente conveniente” ou, quem sabe, esperando que o problema se resolva sozinho. Spoiler: não vai.
Nos bastidores, o argumento beira o curioso: há quem tema que uma investigação possa causar a paralisação total do sistema. Como se o serviço atual já não fosse, na prática, uma paralisação disfarçada. A lógica é simples e irônica: melhor não investigar para não piorar algo que já funciona mal. Ou, traduzindo para o português claro: melhor não mexer, vai que descobre.
Enquanto isso, a população segue refém de um sistema que coleciona falhas e distribui prejuízos. E, ao que tudo indica, a estratégia de parte dos vereadores é conhecida do brasileiro: deixar o tempo passar, perder por WO e torcer para que a indignação também perca força. O famoso “o povo que lute”, agora em versão institucional.
E como toda boa novela, com direito a drama, suspense e reviravoltas, o enredo da empresa responsável pelo transporte, a Ricco Transportes, ganha novos capítulos. O mais recente? A tentativa de evitar greve mesmo com salários atrasados. Um detalhe pequeno, quase irrelevante, afinal, quem precisa receber em dia, não é mesmo?
Resta saber qual será o próximo episódio dessa trama que parece não ter fim. Mas uma dúvida persiste, insistente: por que tanta resistência em assinar uma CPI que promete, ao menos em teoria, esclarecer tudo o que aconteceu?
Talvez a resposta seja simples demais para ser dita em voz alta. Ou complexa demais para ser explicada sem causar desconforto. De qualquer forma, eis a questão: o que exatamente não pode vir à tona?
Porque, no fim, o verdadeiro mistério não está apenas no transporte público de Rio Branco.
Está, sobretudo, nas assinaturas que nunca chegam.