Por: Ana Paula Melo
A chegada do deputado federal Nikolas Ferreira ao Acre nesta semana não passou despercebida. Ao lado do senador Marcio Bittar, o parlamentar percorreu municípios do interior, incluindo Marechal Thaumaturgo, uma das regiões mais isoladas do estado, em uma agenda que misturou política, simbolismo e produção de conteúdo para as redes sociais. Mas, para além dos discursos e das imagens compartilhadas, ficou uma pergunta inevitável: qual Acre foi apresentado ao restante do país?
Em vídeos e registros divulgados durante a viagem, Nikolas Ferreira apostou em uma estética que remete à ideia de uma Amazônia exótica, distante e quase intocada. Em um dos momentos que mais repercutiram, o deputado discursa em um evento e afirma que acreditava que no Amazônia “só tinham índios”. Já em outro momento, o parlamentar apareceu com o rosto pintado de vermelho, numa tentativa aparente de aproximação com a cultura local. O gesto, no entanto, levantou interpretações distintas. Para alguns, uma demonstração de interesse pela identidade amazônica. Para outros, uma representação superficial e caricata de um território complexo, diverso e frequentemente reduzido a estereótipos nacionais.
O Acre há décadas enfrenta o peso de narrativas que o colocam entre o desconhecido e o folclórico. Não raramente, o estado vira piada nas redes sociais, tratado como um lugar “misterioso”, isolado do restante do país ou habitado apenas por floresta e povos tradicionais. Ao reforçar imagens centradas no exótico, políticos e influenciadores correm o risco de alimentar uma visão limitada da Amazônia, uma região que vai muito além de fantasias construídas à distância.
A visita de Nikolas Ferreira também escancarou um velho hábito da política contemporânea: transformar territórios em cenários de engajamento digital. A floresta, os rios, as comunidades ribeirinhas e indígenas acabam servindo como pano de fundo para vídeos de impacto rápido, pensados para viralizar. Nesse contexto, a linha entre valorização cultural e exploração simbólica se torna tênue.
Quando o deputado publica em seu Instagram que “agora o Brasil conhece mais sobre vocês”, a frase soa positiva à primeira vista. Mas conhecer como? Pela lente da curiosidade? Pelo olhar do desconhecido? Ou pela compreensão real dos desafios sociais, econômicos e estruturais enfrentados pelo estado? O Acre não precisa apenas ser visto; precisa ser compreendido.
A Amazônia não pode continuar sendo apresentada apenas como espetáculo visual ou instrumento narrativo para figuras políticas em busca de alcance nacional. O Acre urbano, universitário, empreendedor, cultural e socialmente diverso raramente ganha espaço nessas visitas midiáticas. Enquanto isso, prevalece a imagem de um território vasto, sombrio e misterioso uma visão que ainda diz mais sobre quem olha do que sobre quem vive aqui.


