Rio Branco, AC, 18 de outubro de 2026 12:17
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Avesso da inocência e tudo que a infância não deveria saber

Por Luísy Xavier

O que os olhos pequeninos veem? O que guardam no silêncio dos quartos, no recôndito de suas gavetas, e como lidam com a vida, a saudade, a infância e a morte? De repente, quase sem aviso, deixam para trás as tardes que pareciam não ter fim e descobrem cedo demais, seja no espaço deixado por quem já não ocupa a cama ao lado, seja sob o sol implacável que castiga o pátio de uma cadeia, que a realidade impõe abismos antes mesmo que aprendam a amarrar os cadarços.

Se os dicionários costumam dizer que a inocência é o estado daquele que é puro, livre de culpa ou incapaz de causar o mal, as asperezas da vida nos levam a questionar em qual curva do caminho essa condição se perde, ou se aprender a encarar as dores do mundo significa necessariamente deixar de ser inocente. Talvez a resposta não esteja naquilo que uma criança desconhece, mas na maneira como continua enxergando a vida mesmo depois de conhecer a morte.

Para Wesley Moura, de 11 anos, que cursa o 6º ano do Ensino Fundamental e divide seus dias entre as atividades escolares e as partidas de futebol, a morte não é um conceito abstrato de altar. Entre as brincadeiras e os sonhos, ele convive com a ausência da avó e de seus dois primos-irmãos, sem, contudo, perder a capacidade de enxergar beleza na existência, encontrando na espiritualidade que lhe foi ensinada uma forma de compreender as despedidas, como revela ao afirmar que “acho a vida boa, só que a injustiça eu não acho tanto, tão até dizendo que a morte está chegando, mas Deus está com nós o dia todo, e tem que se lidar com a morte porque o céu é melhor do que tudo, deus é melhor do que tudo”.

A promessa gravada em Mateus 19:14, “Deixai vir a mim os pequeninos, porque deles é o reino dos céus”, ecoa através dos tempos como um acalento, alimentando a ideia de que existe um lugar reservado para aqueles que ainda não deveriam conhecer tão de perto as dores da existência. Há uma mística bonita na crença de que a infância possui um passaporte direto para a eternidade, como se a pouca idade pudesse proteger das lembranças dolorosas, mas, quando a morte atravessa os dias de um menino da periferia, o céu deixa de pertencer apenas às promessas religiosas e passa a fazer parte da maneira como ele fala de quem partiu.
Há um momento na infância em que os pais deixam de parecer invencíveis e passam a ser reconhecidos também por suas fragilidades, uma descoberta que, para Wesley, se mistura à percepção de que sua mãe, mesmo enfrentando uma gestação, faz faxinas pelo bairro para sustentar a família, pois, como observa o menino, “quando tá com fome ela dá o seu jeito, não tem nada para tomar café? ela dá seu jeito, faz alguma coisa”. Com ela, aprendeu a “fazer comida, ter atitude com algumas coisas e ser muito maduro” e, diante de tanto cuidado recebido, alimenta uma promessa maior que seus 11 anos, “o que eu puder fazer eu faço por ela e quando eu crescer vou fazer dela uma rainha”.

Sentar diante de Wesley para essa entrevista foi como me colocar diante de um espelho invertido, em que o luto mudava de direção, pois nossas histórias foram atravessadas pela morte dos irmãos Jorbson e Jardeilson, mas seguiram caminhos diferentes na memória. Eu passo os dias falando de Jorbson, meu melhor amigo, e apenas mencionando Jardeilson; Wesley fez o percurso oposto, dedicando quase todo o seu fôlego à lembrança de Jardeilson, seu primo-irmão e melhor amigo, com quem dividia a cama e os segredos da infância, numa conversa em que reconheci a minha própria saudade enquanto ele dava palavras à perda que, até então, guardava em silêncio.

No quarto onde agora dorme sozinho, Wesley chora a ausência de Jardeilson e encontra na fotografia salva no celular e numa antiga caixinha de som formas de preservar sua lembrança, como quem protege um pequeno tesouro contra a passagem do tempo. São objetos comuns, mas carregam algo que não cabe neles, a memória de uma convivência feita de noites lado a lado e dos segredos partilhados antes de dormir, quando a cama ainda tinha espaço para dois. Foi nesses detalhes da entrevista, mais do que em qualquer explicação sobre o luto, que a dimensão daquela amizade se revelou, sem que o menino precisasse deixar de ser criança para demonstrar o tamanho da saudade.

Menino preto que cresce na periferia, com o pai preso por tráfico de drogas, Wesley conheceu cedo uma realidade que ultrapassa os limites de sua infância. Quando vai à unidade prisional visitá-lo, vê também famílias à espera sob o sol, sem uma cobertura que as proteja do calor; em meio a essas experiências, conta que chorou e pediu ao pai que deixasse aquela vida, embora afirme que sua decisão de não seguir o mesmo caminho nasceu de seus próprios pensamentos, pois “eu sempre pensei isso desde criança, ninguém me falou” e “nunca quero ser preso, eu nunca vou pra lá”. Ao falar do futuro, retoma ainda o ensinamento da mãe de nunca pagar o mal com o mal e seu desejo de crescer para cuidar dela.

Mas, entre as responsabilidades que aprendeu a assumir e as despedidas que precisou enfrentar, a infância de Wesley insiste em florescer, revelando um menino que aconselha os amigos a seguirem pela “vida boa” e corre para ajudar uma criança menor a carregar um pesado vaso de água sanitária. Aquele que promete fazer da mãe uma rainha também esconde o rosto em um travesseiro de crochê em formato de coração, feito pelo pai, quando o assunto são as namoradinhas, deixando escapar entre os fios do tecido um sorriso envergonhado, desses que devolvem à cena a leveza de um garoto de 11 anos, com seus afetos, suas descobertas e suas brincadeiras.

É nos campos de futebol que seus dias encontram outro ritmo, entre os treinos nas quatro escolinhas que frequenta, o troféu de artilheiro e os abraços dos colegas pelos gols marcados, lembranças que se misturam aos banhos de chuva na rua alagada, às tardes frias em que a família se reunia na calçada para comer acerola e às brincadeiras de redemoinho e rei da água dentro da caixa-d’água. A vida, para ele, insiste em ser boa também nessas cenas, enquanto o sonho de jogar futebol convive com o desejo de cursar uma faculdade “de médico”, como ele mesmo diz, sem que precise escolher agora entre todos os caminhos que a infância ainda lhe permite imaginar.

Há uma delicadeza particular na maneira como Wesley se refere àqueles que perdeu, evitando as palavras “morte” e “morreu” para recorrer a “falecer”, como se a escolha de um termo menos áspero pudesse suavizar o peso das despedidas sem apagar a saudade de quem ficou. Sua irmã, Agatha Cristina, de 8 anos, encontra no céu outra maneira de falar da ausência, pois, embora tenha perdido a avó quando ainda era bebê, olha para as estrelas e afirma que ela está ali, esperando por ela. Não sabemos se as palavras suavizam a dor ou se as estrelas respondem às perguntas das crianças, mas sabemos que, para os dois irmãos, as pessoas amadas continuam presentes nas lembranças e nos gestos do cotidiano.
Talvez a inocência não esteja na ausência de sofrimento, mas na possibilidade de continuar descobrindo o mundo mesmo depois de conhecer suas dores, sem que as despedidas determinem tudo aquilo que uma criança pode ser. Aos 11 anos, Wesley guarda a fotografia de quem partiu, sonha em fazer da mãe uma rainha e corre atrás da bola como tantos outros meninos, carregando lembranças que não se apagam e desejos que ainda procuram espaço para florescer. Entre o vazio de uma cama, as estrelas observadas pela irmã e os banhos de chuva na rua alagada, sua história não oferece uma resposta simples sobre a morte, apenas nos lembra de algo essencial, Wesley continua sendo criança.

Foto: Luísy Xavier

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