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Daqui pra frente: mulheres reconstruindo o mundo

Há tempos na história em que não basta apenas seguir vivendo. É preciso reconstruir o mundo.

Vivemos um desses tempos. Guerras, crises climáticas, disputas de poder e desigualdades profundas atravessam o nosso século e revelam o quanto a humanidade ainda precisa aprender sobre convivência, justiça e dignidade.

Mas, em meio a tudo isso, uma força silenciosa continua sustentando a vida e apontando caminhos de reconstrução.

As mulheres.

No século XXI, mulheres têm ocupado espaços na ciência, na política, na economia e nos territórios onde a vida acontece todos os dias. Pesquisadoras lideram descobertas que

salvam vidas, empreendedoras movimentam economias locais e mulheres organizadas em redes sustentam comunidades inteiras.

Mas talvez seja importante lembrar algo que muitas vezes esquecemos. As mulheres não estão inventando um novo lugar no mundo.

Em muitas civilizações antigas, a mulher que gera a vida era reconhecida como guardiã da terra, do conhecimento e das relações comunitárias. O centro da vida social passava por elas. O que estamos vivendo agora não é apenas avanço.

É também retomada.

Retomada da voz. Retomada de espaços. Retomada da possibilidade de decidir sobre o próprio destino.

Mas toda retomada encontra resistência.

Durante séculos, estruturas patriarcais organizaram o mundo de forma a manter os homens no centro do poder. Quando as mulheres começam a ocupar esses espaços, surgem reações.

Algumas são silenciosas. Outras são bastante explícitas.

Às vezes essa resistência aparece em discursos aparentemente progressistas. Há homens que aprendem o vocabulário do feminismo, que se apresentam como aliados e dizem estar

desconstruídos. Mas quando são confrontados com mudanças reais, como divisão de poder, revisão de comportamentos ou escuta verdadeira, muitos preferem esvaziar as pautas das mulheres ou reinterpretar nossas próprias narrativas para neutralizar nossas críticas.

Se formos honestas, todas nós já encontramos esse tipo de personagem em algum momento da vida. O homem que se apresenta como aliado, mas que diante do confronto prefere preservar privilégios.Quando isso acontece, ele deixa de ser parte da transformação e passa a ser apenas mais um agente de manutenção do mesmo sistema que diz combater.

Em outros momentos, essa reação ultrapassa o campo simbólico e se transforma em violência explícita.

Recentemente o mundo assistiu com indignação ao ataque que destruiu uma escola primária de meninas na cidade de Minab, no Irã, em meio à escalada de conflitos na região. Um bombardeio atingiu uma sala de aula cheia de crianças.

Meninas que estavam aprendendo a escrever. Meninas que estavam sonhando. Meninas que estavam apenas vivendo.

A história das guerras revela uma verdade dura. Quem decide as guerras raramente é quem morre nelas.

Quem morre são as crianças. São as mulheres. São os idosos.

São justamente aqueles que sustentam a vida cotidiana do mundo.

Existe algo profundamente simbólico nisso. Aqueles que dão continuidade à vida, que educam, que cuidam e que mantêm as comunidades funcionando são também os mais expostos quando o poder entra em disputa.

E essa lógica de violência não está apenas nos cenários de guerra.

Ela também aparece no feminicídio que continua acontecendo no Brasil. Aparece nas mortes de mulheres que decidiram romper relações abusivas, exercer autonomia ou simplesmente viver sem aceitar o controle masculino sobre suas vidas.

Existe também uma outra forma de violência que muitas vezes passa despercebida. A violência política de gênero. O silenciamento, a desqualificação e os ataques direcionados às mulheres que ocupam ou tentam ocupar espaços públicos.

E isso costuma se intensificar justamente quando nos aproximamos de períodos eleitorais.

Mulheres que decidem falar, disputar ideias, liderar ou ocupar espaços de decisão passam a ser atacadas, questionadas e pressionadas. Essa também é uma forma de guerra. Uma guerra que tenta nos empurrar novamente para o silêncio.

Por isso talvez seja importante dizer algo com muita clareza. Daqui pra frente as mulheres precisam estar vigilantes. Precisamos estar despertas. Precisamos também pensar estrategicamente.

Não se trata de gostar ou não gostar umas das outras. Não se trata de afinidade pessoal ou de concordarmos em tudo. Trata-se de sobrevivência.Durante muito tempo tentaram nos dividir. Colocar mulheres umas contra as outras sempre foi uma forma eficiente de manter o poder exatamente onde ele sempre esteve.

Mas a história tem nos ensinado outra coisa.

Quando uma mulher cai, nenhuma de nós permanece intacta. Quando uma é silenciada, todas sentimos o peso desse silêncio. Quando uma é violentada, o recado não é apenas para ela.

É para todas nós.

Por isso precisamos aprender algo fundamental neste tempo da história.

Quando uma cai, todas caem.

E se todas caem, também precisamos aprender o outro movimento.

Levantar juntas.

Nos unir diante daquilo que realmente importa. Não por afinidade pessoal, não por concordarmos em tudo, mas porque existe algo maior que precisa nos conectar.

A defesa da vida das mulheres.

Independentemente de partidos políticos, de trajetórias ou de posições individuais, existe uma aliança que precisa ser inegociável.

A aliança pela vida das mulheres.

O nosso combate não é feito com armas. Nosso combate é pela educação, pelas oportunidades, pelos espaços de decisão e pelas redes que construímos umas com as outras.

Porque quando uma mulher encontra força para se levantar, ela quase nunca levanta sozinha.

Ela puxa outras.

E é assim que, pouco a pouco, as mulheres têm reconstruído o mundo.

Daqui pra frente o desafio não é apenas continuar avançando.

É garantir que possamos viver.

Viver com dignidade. Com liberdade. Com segurança.

Porque as mulheres não estão apenas transformando o mundo.

Estamos, pouco a pouco, reconstruindo cada pedaço dele.

E retomando aquilo que sempre nos pertenceu.A vida. O futuro. E o direito de existir plenamente.

Lidianne Cabral escreve semanalmente para o Alerta Cidade, é articuladora de redes de empreendedorismo feminino há 20 anos e presidente da Associação de Mulheres Empreendedoras Elas Fazem Acontecer Ac