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Em uma sociedade fracassada, “ser homem” é apoiar o abusador, ao invés de acolher a vítima

O Acre vive hoje um dos seus dias mais tristes para as mulheres de todo o território acreano, após a veiculação de diversos áudios de homens, obviamente, questionando a veracidade de denúncias feitas por mulheres que afirmam ter sofrido violência sexual na madrugada do último sábado de Carnaval. Nota-se, pelo tom e teor, o desprezo pelas mulheres que não estão sob o domínio completo daqueles que apoiam os que abusam, mas não protegem quem foi abusada.

Infelizmente, nos dias atuais, mais do que nunca, as mulheres estão vulneráveis a situações que enchem os olhos de lágrima e o coração de indignação. Um ato de conexão íntima e carnal entre duas pessoas se torna uma memória invadida não por um, ou dois, nem três, mas por quatro homens.

Até que ponto os homens da sociedade atual estão prontos para receber uma negativa às suas vontades animalescas, às quais cedem como se fossem seres irracionais, agindo apenas por instinto? Poderia ser essa a desculpa, ou estamos errando na maneira como educamos nossos meninos desde a base, em sua criação?

É válida e notória a necessidade de se respeitar o princípio do contraditório e da ampla defesa, em que todos os acusados de qualquer crime devem passar pelo crivo da Justiça e, em caso de sentença, ser rotulados como criminosos, abusadores. Porém, quando uma mulher se levanta com dor, chorando e pedindo ajuda, não se deve perguntar o que ela estava fazendo ali, nem tampouco deve-se invalidá-la.

Quando uma mulher encontra forças para denunciar a violência que sofreu, a sociedade não pode responder com desconfiança, ironia ou julgamento. Questionar a vítima, relativizar a dor ou tentar justificar a agressão é reforçar a cultura da violência e do silêncio, afastando outras mulheres da busca por justiça e proteção. Respeitar, acolher e investigar com seriedade não é tomar partido, é cumprir o dever humano e social de não permitir que a violência seja normalizada.

Homem de verdade não é aquele que se atrai por uma mulher, mas aquele que a respeita, entendendo que o espaço dele começa quando o dela termina.

Em uma sociedade que fracassou, o acusado vira vítima, e a mulher, o monstro que denunciou.