Entre o instagramável e o invisível: mulheres, saúde mental e sobrevivência
Por Lidianne Cabral
Vivemos um tempo em que o cuidado virou performance. Corpos saudáveis, rotinas perfeitas e vidas organizadas se tornaram vitrine. A lógica do “instagramável” alimenta comparações constantes, especialmente em estados pequenos e ainda em desenvolvimento, como o Acre, onde a vida do outro parece sempre melhor, mais leve e mais bem-sucedida. Mas a vida real não cabe em filtro. Essa comparação permanente tem aprofundado o adoecimento mental, sobretudo entre mulheres.
Campanhas como o Janeiro Branco cumprem um papel simbólico importante, mas claramente insuficiente. Saúde mental não se constrói em um mês. Ela exige educação contínua, informação acessível, redes de apoio e uma cultura que reconheça o sofrimento antes que ele se transforme em ruptura. Não se trata apenas de visibilidade, mas de cuidado permanente.
Os dados consolidados de 2025 reforçam esse alerta. O Brasil registrou mais de meio milhão de afastamentos do trabalho por transtornos mentais, principalmente relacionados à ansiedade e à depressão. Não foi previsão, aconteceu. A tendência observada indica que 2026 seguirá nesse mesmo ritmo, evidenciando que campanhas pontuais não dão conta de um problema estrutural, intensificado no pós-pandemia e já percebido mundialmente.
No mesmo período, o Acre encerrou 2025 com índices elevados de feminicídio, acima da média histórica do estado. Cada mulher assassinada representa muito mais do que uma estatística. Significa vínculos rompidos, famílias adoecidas e impactos diretos na infância, na economia local e no tecido social. Quando uma mulher morre, quando desiste ou quando vive em exaustão permanente, toda a sociedade paga por isso.
O adoecimento começa, muitas vezes, na quebra dos vínculos sociais, afetivos e econômicos. Cresce também o número de mulheres que apenas na vida adulta se reconhecem dentro do espectro autista ou convivem com transtornos de ansiedade, depressão e outros adoecimentos sem diagnóstico precoce e sem suporte adequado. Isso revela uma falha coletiva: ainda temos dificuldade de validar o indivíduo em sua singularidade e, ao mesmo tempo, em seu lugar no coletivo.
Quando olhamos para quem está à margem, o quadro se amplia. No Acre, especialmente em Rio Branco, cresce o número de mulheres em situação de rua, muitas delas afastadas de seus lares por violência, abuso, dependência econômica ou rompimento de vínculos familiares. Não se trata de escolha individual, mas de um processo social de exclusão que começa muito antes da rua.
Saúde mental também é renda, moradia, pertencimento e dignidade. E aqui está um ponto central: as mulheres são a base da economia do Estado. Estão à frente dos pequenos negócios, das feiras de bairro, do comércio local e do trabalho informal. Também estão nas escolas, nas unidades de saúde, nas secretarias e nos serviços públicos, sustentando o funcionamento cotidiano do Estado. São maioria nos cuidados, na gestão e na execução da vida coletiva, quase sempre em jornadas múltiplas e invisibilizadas.
Por isso, iniciativas da sociedade civil cumprem um papel essencial. Feiras comunitárias, cursos, oficinas, redes de apoio e projetos de geração de renda não são apenas alternativas econômicas. São também estratégias concretas de cuidado em saúde mental. Quando uma mulher trabalha, empreende e encontra apoio para produzir e vender, ela não apenas gera renda: ela recupera autonomia, autoestima, autoridade e dignidade.
Entre o instagramável e o invisível, é preciso escolher o real.
Porque saúde mental não é tendência.
É sobrevivência, dignidade e responsabilidade social.