Rio Branco, AC, 24 de maio de 2026 08:46

Herança Bocalom: o que mais um ônibus que pegou fogo nos ensina sobre anos de descaso no transporte público de Rio Branco

Íam Arábar

Mais um ônibus quebrado. Mais um coletivo deixando passageiros no meio do caminho. Mais uma cena que, infelizmente, já virou parte da rotina de quem depende do transporte público em Rio Branco. Desta vez, o problema envolvendo um ônibus da Ricco Transportes reacende um debate que a população conhece bem: afinal, até quando o cidadão continuará pagando caro por um serviço que parece nunca funcionar como deveria?

Quem mora na capital sabe que os problemas com ônibus não começaram agora. Durante os anos da gestão do ex-prefeito Tião Bocalom, hoje uma das principais lideranças políticas do Acre, a permanência da empresa Ricco Transportes foi constantemente alvo de reclamações. E não era por pouca coisa. Ônibus quebrados nas principais avenidas da cidade, veículos sucateados, coletivos sem condições adequadas de circulação, panes mecânicas frequentes, incêndios e passageiros expostos ao risco se tornaram episódios quase comuns.

Na Estrada do Calafate, na Avenida Ceará, na Via Chico Mendes ou no Centro da cidade, era frequente encontrar ônibus parados, trabalhadores atrasados, estudantes prejudicados e pessoas revoltadas por não conseguirem simplesmente chegar ao trabalho ou voltar para casa com dignidade. Em muitos casos, nem mesmo a manutenção aparente dos veículos passava confiança.

O mais preocupante é que, durante todo esse período, os alertas vieram de todos os lados. A população reclamava. Passageiros denunciavam nas redes sociais. A imprensa mostrava os problemas. Ainda assim, pouco parecia mudar. A sensação de muitos usuários era de que suas vozes nunca foram realmente ouvidas.

Quando um gestor público insiste na manutenção de um sistema amplamente criticado, a pergunta inevitável surge: qual é, de fato, a prioridade? Porque transporte coletivo não é luxo, é necessidade básica. É o trabalhador saindo cedo de casa, a mãe levando filho para a escola, o estudante tentando não perder prova, o paciente indo a uma consulta médica. Quando um ônibus quebra, não é apenas um veículo que para. A vida das pessoas também para.

O debate fica ainda mais necessário quando se lembra dos milhões de reais em subsídios destinados ao sistema de transporte ao longo dos últimos anos. O dinheiro público entrou. O apoio financeiro aconteceu. Mas a melhoria percebida pelo usuário, na prática, nunca chegou na mesma velocidade.

Agora, mesmo em um novo momento administrativo, a Ricco Transportes continua operando na cidade, e a população segue convivendo com episódios que parecem retirados de um filme repetido. A pergunta que fica é simples, mas necessária: Rio Branco vai continuar aceitando um transporte coletivo marcado por improvisos, falhas e insegurança, ou finalmente haverá uma cobrança real por qualidade?

Porque no final da conta, quem sempre paga o preço não é a empresa nem o gestor. É a população, que continua esperando no ponto, sem saber se o ônibus vai chegar, quebrar no caminho ou, pior, colocar vidas em risco.

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