Início » Indígenas denunciam mais de 30 casos de violência em Mato Grosso do Sul
Indígenas denunciam mais de 30 casos de violência em Mato Grosso do Sul
Apib contabiliza mais de 30 ocorrências relacionadas ao período eleitoral; incêndio em casa de rezadeira de 90 anos e áudios com ameaças estão entre as denúncias.
Mais de 30 casos de violência contra povos indígenas foram contabilizados em Mato Grosso do Sul durante o período eleitoral, segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). As denúncias envolvem ameaças, ataques e atropelamentos que resultaram em mortes. Entre as ocorrências mais recentes está o incêndio da casa da rezadeira Ñandesy Roberta, de 90 anos, na aldeia Jaguapiré, em Tacuru, a cerca de 427 quilômetros de Campo Grande. O imóvel foi atingido na manhã de quinta-feira, 29 de outubro, e, segundo a Apib, o fogo foi criminoso. Instrumentos sagrados utilizados em rituais tradicionais dos povos Kaiowá e Guarani também foram destruídos.
Além do incêndio, a entidade denuncia ameaças feitas por meio de mensagens de áudio que circularam após o segundo turno presidencial, realizado no domingo, 25 de outubro. Em uma das gravações, um homem sugere envenenar a água que abastece uma aldeia indígena de Tacuru, em reação ao voto dos moradores. O prefeito Rogério Torquetti (PSDB) confirmou que o autor é servidor municipal e informou que ele foi afastado temporariamente, com abertura de processo administrativo para apurar sua conduta. Em outro áudio, um segundo funcionário ofende indígenas e ameaça um interlocutor, mencionando agressões físicas e uso de arma de fogo.
Diante dos relatos, o Ministério dos Povos Indígenas e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) acionaram a Polícia Federal e acompanham as denúncias. O ministro Eloy Terena anunciou a criação de uma força-tarefa interministerial para receber os registros de ataques e ameaças e centralizar as informações encaminhadas por órgãos públicos. Em vídeo divulgado na sexta-feira, 30 de outubro, Voninho Guarani Kaiowá, coordenador da Apib, cobrou a investigação dos casos e a punição dos responsáveis.
O Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul (MPF-MS) também abriu procedimentos para verificar as acusações e adotar medidas de proteção aos territórios indígenas. Em Tacuru, o órgão estabeleceu prazo de 48 horas para que a prefeitura apresente informações sobre a atuação dos servidores e recomendou a instauração de processo administrativo disciplinar e o afastamento cautelar dos envolvidos. Já em Naviraí, o procurador responsável concluiu que denúncias de supostos homicídios motivados por conflitos políticos eram boatos e que imagens fora de contexto foram falsamente associadas a ataques contra indígenas.