Lideranças do povo Ashaninka chegaram a Brasília nesta quinta-feira (23) para uma série de reuniões com órgãos do governo federal em busca de medidas emergenciais contra o avanço do crime organizado transnacional na fronteira entre Brasil e Peru. A mobilização ocorre após a invasão da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, no Acre, em 6 de julho, quando homens armados entraram na área em busca de lideranças tradicionais. As informações fazem parte de reportagem especial de O Globo, que acompanhou a situação envolvendo a comunidade indígena.
Segundo relatos dos moradores, cinco criminosos encapuzados, falando espanhol e portando fuzis, circularam pela aldeia Apiwtxa e ameaçaram integrantes da comunidade. O episódio levou à deflagração da Operação Ashaninka, com atuação do Comando de Fronteira Juruá/61º Batalhão de Infantaria de Selva (61º BIS), do Exército Brasileiro, em conjunto com órgãos de segurança do Acre.
A presença das forças de segurança trouxe redução momentânea da tensão, mas as lideranças afirmam que a resposta precisa ser permanente. O coordenador-geral da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ), Francisco Piyãko, afirmou que a comunidade enfrenta uma situação inédita com a aproximação entre narcotráfico e crimes ambientais.
“Enfrentamos pela primeira vez o narcotráfico unificado aos crimes ambientais em nosso território, mas a resposta do Estado não pode ser feita de missões pontuais; precisamos de presença permanente e cooperação internacional antes que a violência nos engula”, declarou Piyãko.
A preocupação dos indígenas está relacionada ao avanço de atividades ilegais na região de fronteira, como tráfico de drogas, exploração clandestina de madeira, mineração ilegal e abertura de estradas sem autorização ambiental. A área peruana de Ucayali, próxima ao território brasileiro, é apontada como um dos pontos de expansão do cultivo de coca e de rotas utilizadas por grupos criminosos.
As lideranças também defendem uma atuação conjunta entre Brasil e Peru para combater a estrutura que conecta diferentes crimes na Amazônia. Durante a agenda em Brasília, representantes Ashaninka devem se reunir com integrantes do Ministério dos Povos Indígenas, Ministério da Justiça e Segurança Pública, Ministério das Relações Exteriores, Funai e Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA).
A Terra Indígena Kampa do Rio Amônia é reconhecida pelo modelo de preservação ambiental e gestão comunitária desenvolvido pelos Ashaninka. Para as lideranças, a falta de fiscalização contínua nas regiões de fronteira deixou comunidades indígenas mais expostas à atuação de grupos criminosos que tentam transformar territórios protegidos em corredores para atividades ilegais.


