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Mulheres, meninas e juventude: o ato de pensar o Acre para além do presente

Hoje celebramos a conquista do voto feminino no Brasil, um marco histórico que reconheceu oficialmente a cidadania política das mulheres. Foi uma conquista construída com luta, resistência e coragem. Lembrar essa data não é apenas reverenciar o passado. É refletir sobre o presente e sobre o futuro que estamos construindo para meninas, mulheres e juventudes diversas.

Pensar o Acre para além do presente é um ato de responsabilidade. Talvez não haja imagem mais concreta desse gesto do que uma jovem descendo de um ônibus lotado à noite, calculando o caminho até casa, segurando livros contra o peito e carregando, junto com o medo, um projeto de futuro.

Maysa Rychelle tem 20 anos, mora na Cidade do Povo e é estudante de Administração no Instituto Federal do Acre (IFAC). É também técnica em projetos e atua na Associação de Mulheres Empreendedoras Elas Fazem Acontecer Acre, contribuindo para iniciativas de fortalecimento da autonomia feminina. Acredita na educação como caminho de transformação e vê no estudo a possibilidade de construir legado no próprio estado. Já deixou de participar de atividades acadêmicas noturnas porque a insegurança falou mais alto. Muitas vezes reorganizou sonhos ao redor do medo de não chegar segura em casa.

Se em Rio Branco, onde há ensino superior e maior estrutura, o medo ainda organiza escolhas, o que dizer das meninas e mulheres jovens que vivem nos municípios mais afastados? O interior do Acre possui universidades e institutos federais, o que representa um avanço importante. No entanto, essa não é a realidade acessível para a maioria das meninas e jovens das comunidades ribeirinhas e zonas rurais. Muitas percorrem longas distâncias ou atravessam rios para estudar. Outras desistem antes mesmo de concluir o ensino médio.

Nas últimas décadas, as mulheres avançaram como nunca. No mundo inteiro ampliaram sua presença no ensino superior, na ciência e nos espaços de liderança. Estudos mostram que sociedades que investem na igualdade de gênero apresentam melhores indicadores de desenvolvimento humano. Quando mulheres e juventudes participam plenamente, toda a sociedade prospera.

Mas esse avanço convive com uma contradição dura. Uma em cada três mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual ao longo da vida. No Brasil, os índices de violência contra mulheres seguem elevados. O Acre ainda aparece entre os estados com taxas proporcionais preocupantes de feminicídio e violência de gênero.

A violência não se limita ao feminicídio. Inclui abuso sexual, exploração sexual infantil, violência doméstica e psicológica. O caso recente de repercussão nacional envolvendo uma menina de 12 anos, cuja relação com um homem de 35 anos foi tratada como matrimônio e resultou em absolvição judicial, não ocorreu na Amazônia. Mas poderia ter ocorrido. A vulnerabilidade de meninas ainda é realidade em diferentes regiões, inclusive no interior acreano.

Também não podemos ignorar símbolos locais. Quatro jovens sob investigação por violência contra mulheres foram homenageados em campo de futebol no Acre. A normalização pública desse gesto envia uma mensagem perigosa. Violência não pode ser relativizada.

A presença do goleiro Bruno no Acre, condenado pelo assassinato de Elisa Samúdio, provoca reflexão. Ao atuar profissionalmente no estado como se nada tivesse acontecido, o caso reacende a memória de um crime que chocou o país. Que mensagem isso comunica às meninas, às mulheres e às juventudes acreanas? Que sensação de segurança isso produz?

Celebrar o voto feminino também nos leva a refletir sobre participação política. Dados mostram redução na emissão de títulos eleitorais entre jovens e um afastamento crescente das juventudes dos espaços formais de decisão. Quando a juventude deixa de se reconhecer na política, não é apenas um número que diminui. É um sinal de desalento e de perda de esperança.

Essa pauta não é sazonal e não pode aparecer apenas em período eleitoral. Mulheres, meninas, juventudes e violência de gênero são temas permanentes. Precisam estar no cotidiano das escolas, das universidades, das igrejas, das comunidades, das famílias e das instituições. Precisam ir além das políticas públicas e envolver toda a sociedade.

Quando a juventude não encontra oportunidade, muitas vezes parte para outros estados. Outras vezes é capturada pela violência. No Acre, jovens periféricos figuram entre as maiores vítimas de homicídio ou compõem parte significativa da população carcerária. Isso também é um alerta. É sobre falta de perspectiva. É sobre ausência de pertencimento. É sobre futuro interrompido.

Ao mesmo tempo, a representatividade feminina inspira. Ver mulheres ocupando espaços de liderança amplia horizontes para meninas e juventudes. Autonomia não é apenas financeira. É política, social e simbólica. Autonomia econômica amplia escolhas e fortalece a capacidade de permanecer.

O Acre tem história de mulheres fortes e juventudes resilientes. O desafio é garantir que esse potencial não seja interrompido pela violência nem limitado pela insegurança.

Eu não tenho todas as respostas. Talvez você, caro leitor, cara leitora, amiga ou amigo que acompanha meus artigos, também não tenha.

Mas fica a reflexão.

Que Acre estamos construindo para nossas meninas?

Que futuro estamos oferecendo às nossas juventudes?

Que mensagem estamos transmitindo às mulheres quando normalizamos a violência?

Pensar o Acre para além do presente é ter coragem de fazer essas perguntas.

E não desviar delas.

 

Lidianne Cabral

Escreve semanalmente no Alerta Cidade sobre mulheres, economia e empreendedorismo feminino. Atua na rede de proteção a mulheres vítimas de violência e na construção de autonomia econômica para mulheres no Acre.