Natal do feito à mão: quando o presente vira história
Por Lidianne Cabral
Neste fim de ano, enquanto muitos correm atrás de presentes prontos e impessoais, cresce no Acre um movimento que merece ser observado com mais atenção: a escolha por produtos feitos à mão. Presentes que carregam voz, memória e significado. Em um mundo que ainda se reorganiza após tantas mudanças, o Acre revela sua força justamente no cuidado de quem cria. Mulheres, artesãs, empreendedoras, indígenas e famílias transformam cultura em arte, textura, sabor e delicadeza.

Hoje, mais de 40 mil pessoas no estado encontram no empreendedorismo uma forma de independência, oferecendo produtos e serviços que expressam criatividade e identidade. São negócios que aproximam o consumidor de algo único e profundo.

Dessas mãos que movem a economia, cerca de 23,5 mil são de mulheres que lideram empreendimentos, muitas vezes enfrentando barreiras históricas de acesso a crédito, formalização e oportunidades. Esse protagonismo feminino é a alma de uma economia que nasce da tradição, da sensibilidade e de um olhar atento ao que realmente faz sentido.

Ao observar a história do Acre, percebe-se que esse movimento não é novo, ele se renova. Assim como na época dos empates e de tantas frentes em que as mulheres impulsionaram transformações, hoje é novamente da base feminina que surge a força que sustenta grande parte da economia acreana. A economia criativa e o empreendedorismo formam um movimento sólido e consistente, que tem se mantido firme ao longo dos anos e transformado o cenário econômico do estado.

Esse movimento não está concentrado nos grandes centros de poder, historicamente masculinos, mas sim em redes femininas formadas por coletivos, associações, grupos comunitários e alianças entre mulheres que sustentam o pequeno empreendimento e mantêm viva a produção local. São essas redes que têm sustentado a economia do Acre pela raiz, garantindo que ela continue pulsando. No entanto, esse trabalho precisa ser valorizado, fomentado e reconhecido por gestores públicos, lideranças institucionais e formadores de opinião que compreendam seu impacto real.
Esses movimentos, liderados majoritariamente por mulheres, não estão à margem. Eles existem, resistem e retomam seu espaço na história do Acre, assim como tantas outras mobilizações que marcaram a identidade do estado. Se 2025 foi o ano da virada do artesanato, 2026 tende a ser também uma virada feminina, trazendo de volta o protagonismo das mulheres na construção da força econômica acreana.
No cenário nacional, o Brasil chegou a 4,6 milhões de pequenos negócios em 2025, consolidando o papel desse segmento na geração de renda e oportunidades. No entanto, no Norte e especialmente no Acre, empreender também significa enfrentar desigualdades estruturais e a necessidade constante de ampliar redes de apoio, formação e acesso ao mercado.
O turismo tem sido um aliado importante nessa transformação. O etnoturismo e o turismo de experiência impulsionam mais de 50 segmentos, aproximando visitantes da cultura, da culinária, da arte e das tradições indígenas e ribeirinhas. Com crescimento superior a 22% no faturamento em determinados períodos, o setor revela um potencial que se amplia quando se valoriza aquilo que nasce da própria terra.
A virada de 2026 está justamente nesse caminho: uma economia mais consciente de si mesma, em que cada presente também se torna um gesto de reconhecimento. Quando se escolhe algo feito por uma mulher acreana, por uma artesã indígena ou por uma família que preserva técnicas passadas de geração em geração, fortalecem-se pessoas, memórias e um modelo econômico que floresce com raízes firmes.
Que neste Natal os presentes carreguem não apenas afeto, mas significado. Que lembrem que o Acre produz beleza, força, identidade e pertencimento, e que cada compra consciente é um passo em direção a um futuro mais alinhado com quem somos.