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O Brasil mata mulheres enquanto discute se uma mulher pode defendê-las

Em um país que lidera índices de feminicídio e assassinatos de pessoas trans, a eleição de Erika Hilton para a Comissão da Mulher expõe o verdadeiro problema nacional

Por Germano Marino – Militante LGBTI+

O Brasil mata mulheres.

Essa deveria ser a principal pauta do país. Mas não é.

Em vez disso, o debate público se perde em questionamentos sobre quem pode ou não ocupar espaços de poder, como se a identidade de quem luta fosse mais importante do que a vida de quem morre.

A eleição da deputada federal Erika Hilton para a presidência da Comissão da Mulher na Câmara dos Deputados escancarou essa distorção. Em um país marcado pela violência de gênero, a discussão não se concentrou na urgência de salvar vidas, mas na tentativa de deslegitimar quem se propõe a enfrentá-la.

E isso diz muito sobre o Brasil.

A violência contra a mulher no país não é um fenômeno isolado. É estrutural e persistente.

Dados do Conselho Nacional de Justiça apontam que mais de 10 mil processos de feminicídio foram julgados em 2024. Mas a violência não se resume aos assassinatos.

O Brasil registra centenas de milhares de casos de estupro por ano, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Em 2023, foram mais de 74 mil vítimas registradas.

E o dado mais alarmante não está apenas no número, mas no local onde essa violência acontece.

A maioria dos casos de violência sexual ocorre dentro de casa, praticada por pessoas conhecidas da vítima, muitas vezes familiares. Pais, padrastos, parentes próximos. A violência que deveria ser combatida no espaço público nasce, na maioria das vezes, dentro do espaço que deveria proteger.

Isso desmonta um dos maiores discursos de hipocrisia da sociedade brasileira.

Enquanto mulheres e meninas são violentadas dentro de seus próprios lares, o debate político se apequena ao discutir identidade de gênero, como se esse fosse o problema central do país.

Não é.

O problema é a violência estrutural.

O problema é uma sociedade que ainda naturaliza o controle sobre o corpo das mulheres.

O problema é um Estado que reage menos do que deveria.

No estado do Acre, a realidade acompanha esse cenário preocupante. Levantamento do Senado Federal indica que 78 por cento das mulheres acreanas percebem aumento na violência doméstica, enquanto 62 por cento reconhecem o Brasil como um país machista.

Não se trata apenas de números. Trata se de vidas interrompidas e de uma sociedade que ainda falha em proteger as suas mulheres.

Se essa realidade já é grave para mulheres cisgênero, ela se torna ainda mais brutal quando se trata de mulheres trans.

O Brasil permanece há mais de uma década como o país que mais mata pessoas trans no mundo. Em 2023 foram registradas 155 mortes, em sua maioria assassinatos.

Diante disso, questionar a legitimidade de uma mulher trans para presidir a Comissão da Mulher revela menos sobre a parlamentar e mais sobre o preconceito que ainda estrutura parte da sociedade brasileira.

Desde 2019, o Supremo Tribunal Federal decidiu que a homofobia e a transfobia devem ser enquadradas na Lei nº 7.716/1989, equiparando essas práticas ao crime de racismo.

Isso significa que discriminar, ofender ou incitar violência contra pessoas LGBTQIA+ pode configurar crime.

Mesmo assim, o debate público segue insistindo em retrocessos.

Enquanto mulheres seguem sendo assassinadas, violentadas e abusadas, muitas vezes dentro de suas próprias casas, o Congresso Nacional frequentemente se perde em disputas superficiais e pautas moralizantes.

A chamada defesa da família tradicional brasileira não tem sido capaz de enfrentar o principal problema que ocorre dentro dela mesma.

E essa contradição precisa ser exposta.

Os problemas concretos continuam sendo deixados de lado, como a violência doméstica, o abuso sexual, a desigualdade de gênero e a precarização das condições de trabalho.

É nesse cenário que Erika Hilton se destaca.

Mesmo em seu primeiro mandato, a parlamentar tem trazido para o centro do debate temas estruturais, ampliando o olhar sobre direitos e colocando em evidência a vida real da população brasileira.

E isso incomoda.

Há transfobia inclusive em espaços que deveriam ser de defesa dos direitos das mulheres.

E essa contradição precisa ser enfrentada.

Não é possível falar em igualdade enquanto parte das mulheres continua sendo excluída desse debate.

Nesse contexto, também é importante reconhecer posicionamentos que rompem com essa lógica. A deputada federal Socorro Nery foi a única mulher do Acre a votar favoravelmente à eleição de Erika Hilton para a Comissão da Mulher.

Mais do que um voto, trata se de um gesto político que aponta para a necessidade de ampliar o debate e fortalecer a luta por direitos.

O Brasil não precisa de mais discursos vazios.

Precisa enfrentar o machismo que transforma mulheres em alvo, a transfobia que transforma identidades em estatística e a negligência que transforma direitos em promessas não cumpridas.

A eleição de Erika Hilton não resolve esses problemas.

Mas evidencia quem está disposto a enfrentá-los.

O país precisa amadurecer.

Não é mais admissível que, diante de milhares de mulheres vítimas de violência, inclusive dentro de suas próprias casas, o debate político se concentre em quem tem ou não legitimidade para defendê-las com base em identidade de gênero.

Isso não é política. É desvio de foco.

Enquanto o Brasil discute quem pode falar, mulheres continuam sendo violentadas, abusadas e mortas.

E talvez seja justamente por isso que a eleição de Erika Hilton cause tanto incômodo, porque ela expõe sem rodeios o que o país ainda insiste em não encarar.