Mais do que discutir palavras, é preciso olhar para o que move a vida real das mulheres acreanas.
Há quem critique o termo “empreendedorismo”, e essa reflexão é legítima quando a palavra é usada para suavizar precariedades, esconder a ausência de direitos ou transformar a falta de oportunidades em mera narrativa de superação individual. Essa crítica tem fundamento e nos convida a pensar com mais profundidade.
Mas, no Acre, para além do nome que se escolha, estamos falando de mulheres que todos os dias constroem alternativas concretas de sobrevivência, autonomia econômica e futuro.
E é importante dizer isso sem romantizar.
Não se pode romantizar a longa e, muitas vezes, dolorosa busca das mulheres por autonomia financeira, porque ela quase sempre vem acompanhada da ruptura de estruturas históricas difíceis: dependências econômicas, sobrecarga do cuidado, desigualdades raciais e territoriais, relações violentas, ausência de oportunidades e um mercado que ainda não acolhe todas da mesma forma.
A régua não é igual para todas.
Há mulheres que iniciam pequenos negócios por necessidade imediata, porque precisam garantir sustento, complementar renda ou criar uma saída diante da ausência de emprego formal. Mas há também aquelas que começam buscando mais saúde mental, qualidade de vida, flexibilidade do tempo, possibilidade de maternar com mais presença ou simplesmente escapar de ambientes profissionais adoecedores.
Em ambos os casos, estamos falando de autonomia.
Seja pela urgência da sobrevivência, seja pela necessidade de preservar a saúde emocional, muitas mulheres têm encontrado nos pequenos negócios uma forma possível de reorganizar a própria vida.
Se isso recebe o nome de empreendedorismo, economia solidária, agricultura familiar, produção coletiva, trabalho autônomo ou simplesmente sustento, o essencial permanece: mulheres criando caminhos possíveis onde muitas vezes só havia ausência.
E talvez seja exatamente aí que mora a maior força das mulheres do Acre.
Na agricultura familiar, elas produzem, colhem, transformam e garantem renda para suas famílias. Nas feiras de bairro, ocupam a cidade e movimentam a economia popular. Nos coletivos e organizações de economia criativa e solidária, fortalecem a circulação de saberes, produtos, serviços e afeto.
Há um Acre potente que precisa ser enxergado em suas muitas camadas.
Também é preciso reconhecer as dificuldades concretas de sustentar um pequeno negócio no Acre, além da violência patrimonial, da burocracia da formalização e do custo inicial de um CNPJ para quem está começando, mesmo sabendo da sua importância para garantir direitos fundamentais do trabalho.
E, diante de tudo isso, as mulheres acreanas têm respondido com aquilo que o estado tem de mais valioso: a força das redes.
Elas se unem em coletivos, associações, grupos produtivos, feiras, cadeias solidárias e movimentos de apoio mútuo. Compartilham transporte, clientes, fornecedores, conhecimento e divulgação. O que poderia ser isolamento vira pertencimento. O que seria apenas sobrevivência individual se transforma em força coletiva.
Em muitos casos, essas redes cumprem também um papel decisivo no rompimento de ciclos de violência doméstica, intrafamiliar e patrimonial.
Quando a renda vem acompanhada de acolhimento, rede e pertencimento, ela deixa de ser apenas recurso financeiro e se torna instrumento de liberdade.
Por isso, pensar a cidade e o desenvolvimento do Acre é também pensar espaço, estrutura e reconhecimento para essas mulheres.
O debate sobre o nome pode continuar. Mas ele jamais pode ser maior do que a realidade.
Porque, seja qual for a palavra escolhida, as mulheres acreanas seguem transformando ausência em possibilidade, trabalho em autonomia, rede em proteção e futuro em potência.
Essa é a verdadeira força das mulheres do Acre.
Lidianne Cabral
Escreve semanalmente para o Alerta Cidade, é articuladora de redes de empreendedorismo feminino, educadora social e presidente da Associação de Mulheres Empreendedoras Elas Fazem Acontecer Acre.


