Rio Branco, AC, 23 de agosto de 2026 15:45

Por que Marcio Bittar fala tanto de Bolsonaro e tão pouco de seus próprios projetos para o Acre?

Íam Arábar

Há uma pergunta que eu tenho me feito ao acompanhar a campanha eleitoral no Acre: por que o senador e candidato à reeleição Marcio Bittar usa tanto do seu tempo para falar de Jair Bolsonaro e de sua família?

Não é uma pergunta retórica apenas. É algo que deveria ser observado pelo eleitor acreano.

Em praticamente toda oportunidade que Marcio tem para falar sobre aquilo que pretende fazer pelo Acre, sobre seus projetos ou sobre aquilo que realizou durante seu mandato, o debate acaba tomando outro caminho. Bolsonaro aparece. A família Bolsonaro aparece. A esquerda aparece. As críticas à política de preservação da Amazônia aparecem. Mas e o Acre?

Marcio é senador pelo Acre. Está pedindo novamente o voto dos acreanos. Portanto, deveria ser natural que o centro de sua campanha fosse o estado que ele representa.

Não estou dizendo que um senador não possa ter posições nacionais. É evidente que pode. Faz parte do cargo. O que me chama atenção é quando essas pautas parecem ocupar um espaço muito maior do que aquilo que deveria ser fundamental para quem busca mais oito anos representando o Acre: explicar o que fez e, principalmente, o que ainda pretende fazer.

E existe um exemplo que, para mim, é impossível ignorar: a BR-364.

Marcio Bittar teve uma posição que poucos parlamentares acreanos tiveram a oportunidade de ocupar. Em 2021, foi relator-geral do Orçamento da União. Não era uma função qualquer. O próprio Congresso registra que, naquele ano, seu parecer remanejou R$ 26,5 bilhões no Orçamento. 

Então eu pergunto: por que não conseguimos naquele momento encaminhar uma solução realmente definitiva para a BR-364, especialmente no trecho que conecta Rio Branco ao Juruá?

Essa pergunta ganha ainda mais força porque o próprio Marcio reconheceu posteriormente que, durante o governo Bolsonaro, a rodovia não recebeu os recursos de que precisava. Em pronunciamento no Senado, em 2023, ele admitiu que o governo anterior, do qual foi apoiador, não investiu na BR-364 o necessário. 

Não sou eu dizendo. É o próprio senador.

E é justamente aí que surge uma contradição que precisa ser debatida.

Se Bolsonaro continua merecendo uma defesa tão intensa de Marcio Bittar, inclusive ocupando parte significativa de seus discursos, por que essa mesma disposição não parece ter produzido uma solução para um dos maiores problemas históricos do Acre quando havia proximidade política com o Palácio do Planalto?

Hoje, Jair Bolsonaro está inelegível por decisão da Justiça Eleitoral e também foi condenado criminalmente.  Ainda assim, Bolsonaro e sua família continuam ocupando um espaço enorme no discurso político de Marcio.

Mas quem está disputando o Senado pelo Acre é Márcio Bittar.

É sobre ele que precisamos falar.

Também me incomoda assistir a ataques constantes às políticas ambientais e a representantes legítimos da Região Norte. O Acre não precisa escolher entre preservar e desenvolver. Precisamos encontrar caminhos para produzir, gerar emprego, garantir infraestrutura e, ao mesmo tempo, compreender o tamanho da responsabilidade que temos vivendo no coração da Amazônia.

Discordar de uma política ambiental é legítimo. Transformar praticamente qualquer discussão sobre a Amazônia em uma guerra ideológica é outra coisa.

Também é necessário perguntar sobre as escolhas políticas feitas ao longo da trajetória de Marcio. Grupos mudaram, alianças mudaram e adversários de ontem podem se tornar aliados de hoje. É legítimo que políticos revejam posições. Mas quem pede novamente a confiança da população precisa explicar suas mudanças.

Por isso, talvez a pergunta mais importante desta eleição não seja por que Marcio Bittar defende tanto Bolsonaro.

As pergunta são outras:

Por que o Acre deveria dar mais oito anos de mandato a Marcio Bittar?

Quais são os grandes projetos?

Qual é o plano para a BR-364?

Qual é a proposta para Cruzeiro do Sul e para todo o Juruá?

O que pretende fazer pela geração de emprego?

O que pensa para os jovens que deixam o Acre porque não encontram oportunidades?

Qual é o projeto para os próximos oito anos?

É disso que eu gostaria de ouvir Marcio Bittar falar.

Porque Bolsonaro não está disputando uma vaga ao Senado pelo Acre. Sua família também não.

Marcio está.

E, no fim das contas, uma eleição para o Senado deveria servir exatamente para isso: escolher quem vai defender o Acre em Brasília.

O eleitor merece conhecer essa resposta antes de decidir seu voto.

Compartilhe

Facebook
Twitter
WhatsApp