Por trás das cortinas, Virgílio Viana e o poder político herdado de quem diz ter visto o pai dar comida pra “mendigo”
Este colunista frisa que a palavra “mendigo” é totalmente inapropriada, e foi usada apenas para melhor compreensão do leitor
Em tempos de redes sociais, a política tem encontrado novos palcos para se reinventar. Vídeos emocionados, trilha sensível, histórias cuidadosamente escolhidas e uma narrativa que busca tocar o coração antes de enfrentar a razão. É nesse cenário que surge Virgílio Viana, jovem advogado e filho do ex-governador Tião Viana, tentando se apresentar ao eleitor acreano não por feitos próprios, mas pela evocação de um passado que, para muitos, está longe de ser motivo de saudade.
O vídeo recentemente publicado por Virgílio, no qual relembra um almoço de Natal com moradores em situação de rua no Palácio do Governo, é um exemplo claro dessa estratégia. A história é bonita, quase cinematográfica. Um homem simples, em situação de vulnerabilidade, ensinando uma lição de dignidade ao filho do governador. Emoção garantida, curtidas asseguradas. Mas a política exige mais do que boas histórias. Exige memória, contexto e, sobretudo, responsabilidade.
Enquanto se fala de valores, dignidade e humanidade, há um silêncio conveniente sobre a realidade administrativa do governo que ele tenta exaltar. O mesmo governo que atrasou décimo terceiro salário de servidores, que falhou no pagamento de bolsas de estágio e deixou marcas profundas em setores essenciais do estado. Um legado que, longe de ser apenas humano e sensível, foi também marcado por dificuldades financeiras e escolhas que penalizaram milhares de acreanos.
Virgílio Viana surge agora como a nova aposta desse projeto político, tentando se viabilizar como candidato a deputado federal. O problema não está em ser filho de quem é, mas em querer herdar capital político sem apresentar trajetória, trabalho ou contribuição concreta para o Acre. Até aqui, não há registros de iniciativas relevantes, atuação social consistente ou participação efetiva na construção de soluções para os problemas do estado. Há apenas um sobrenome conhecido e uma narrativa cuidadosamente embalada para consumo eleitoral.
A dignidade dos mais pobres não pode ser usada como peça retórica em campanha antecipada. A história do homem que quis devolver o prato fala muito mais sobre ele do que sobre quem conta. Transformar essa memória em instrumento político revela uma tentativa de romantizar a pobreza e instrumentalizar a miséria para limpar ou suavizar um legado que muitos acreanos ainda lembram com frustração.
O eleitor precisa estar atento. Emoção não paga contas, histórias não substituem políticas públicas e herança política não é credencial automática para ocupar cargos eletivos. O Acre precisa de representantes com trabalho comprovado, propostas claras e compromisso real com o presente e o futuro do estado, não de candidatos que tentam ressuscitar um passado falido com vídeos bem editados e discursos ensaiados sobre valores que, na prática, ficaram pelo caminho.