Rio Branco, AC, 14 de setembro de 2026 01:55

Quando uma mulher chega ao poder, quantas outras precisam chegar com ela?

Há momentos na política que precisam ser compreendidos para além da disputa entre partidos, nomes e projetos. O Acre vive exatamente isso neste momento. Pela primeira vez, temos duas mulheres compondo uma chapa para disputar o Governo do Estado, Mailza e Jéssica Sales. Independentemente de posições políticas ou de quem cada eleitor escolherá, há um simbolismo que não pode ser ignorado: duas mulheres se colocando para ocupar o lugar mais alto do poder executivo estadual.

Para quem acompanha a política acreana há décadas, isso não acontece por acaso. É resultado de uma história construída por muitas mulheres que vieram antes, que ocuparam espaços, enfrentaram preconceitos e abriram caminhos. Desde pequena, acompanho a política no Acre por meio da trajetória da minha mãe, professora e sindicalista. Cresci acompanhando mulheres que, até hoje, são para mim exemplos de luta, de história e de compromisso com a transformação social. Muitas delas dedicaram suas vidas aos movimentos sociais, comunitários e partidários e, mesmo assim, nem sempre tiveram seus nomes ou suas trajetórias reconhecidos.

Falo disso também a partir da minha própria trajetória. São aproximadamente 20 anos de caminhada, de campanhas, de movimentos sociais e de participação política. Durante muitos anos, fui militante de um partido político, fui candidata e tive a oportunidade de exercer funções públicas, inclusive como secretária municipal de Mulheres e como secretária na Prefeitura de Rio Branco. Vivi e conheci por dentro os espaços de poder. E também enfrentei violência política de gênero.

Vi mulheres admiráveis, preparadas e competentes serem deixadas de lado. Mulheres que dedicaram anos de suas vidas à construção de projetos políticos e sociais, que estavam presentes nas reuniões, nas mobilizações, nas campanhas, nos movimentos e nas comunidades, mas que, quando chegavam a determinados espaços de decisão, não eram consideradas para estar à frente. Muitas vezes eram lembradas para ser vice, para ocupar uma secretaria, para ajudar a construir uma candidatura ou simplesmente para trabalhar e pedir votos.

Existe ainda outra violência pouco discutida: a idade. Mulheres que dedicaram uma vida inteira à política e aos movimentos sociais, quando chegam a determinada fase da vida, também começam a ser invisibilizadas. Voltam a ser lembradas quando chega uma eleição, quando precisam trabalhar por uma candidatura ou quando precisam colocar seus votos à disposição de alguém. É como se todo o conhecimento, a experiência e a história construídos ao longo dos anos perdessem valor justamente quando poderiam contribuir ainda mais para a vida pública.

Também conheci de perto mulheres colocadas em candidaturas apenas para cumprir uma exigência legal, sem estrutura, sem recursos e sem as mesmas condições de disputa oferecidas aos homens. Uma candidatura não deveria existir apenas para preencher uma chapa. Se uma mulher aceita disputar uma eleição, ela precisa ter o direito de fazer uma campanha digna, com condições reais de apresentar suas propostas e disputar votos.

A legislação eleitoral avançou e ampliou a participação feminina, mas a verdadeira transformação acontece quando a mulher deixa de ser vista apenas como uma obrigação e passa a ser reconhecida como liderança. As mulheres estão se colocando mais. Querem disputar, querem ter estrutura, querem liderar e querem ocupar espaços de decisão. Isso é importante para a democracia.

E talvez seja aqui que nós, mulheres, também precisemos fazer uma reflexão. Ainda escuto que mulher não vota em mulher. Eu não acredito nisso. Essa ideia foi repetida tantas vezes que muitas de nós acabamos acreditando nela. Mas também precisamos olhar para o nosso próprio comportamento. Quantas vezes uma mulher exige de outra uma quantidade enorme de qualidades, uma trajetória impecável, uma postura perfeita, uma vida sem erros, enquanto para o homem basta que tenha força política, articulação ou simplesmente esteja em uma posição de poder?

Quando uma mulher articula alianças, ela pode ser chamada de interesseira. Quando um homem faz a mesma coisa, é estrategista. Quando uma mulher é firme, dizem que é difícil. Quando um homem é firme, dizem que tem liderança. Quando uma mulher demonstra ambição, questionam suas intenções. Quando um homem demonstra ambição, enxergam competência. Essa é uma das formas mais sutis da violência política de gênero: a régua utilizada para avaliar homens e mulheres não é a mesma.

Essa discussão não pertence a um partido. Acontece em diferentes partidos, ideologias e espaços políticos. Por isso, talvez seja hora de construirmos uma compreensão maior sobre aquilo que nos une. Não precisamos pensar igual, nem votar sempre umas nas outras, nem concordar com todas as mulheres. Mas precisamos reconhecer que a presença feminina nos espaços de poder é uma conquista coletiva e que cada mulher que chega pode abrir caminho para muitas outras.

Precisamos também compreender que uma mulher no poder não deve ser valorizada apenas porque será mais cuidadosa ou mais sensível, ou porque supostamente saberá cuidar melhor das pessoas. Mulheres também são estrategistas, gestoras, negociadoras, líderes e formuladoras de políticas públicas. E devem ser avaliadas pela mesma régua que usamos para avaliar os homens.

Precisamos de mulheres pensando em creches, segurança, saúde, educação, empreendedorismo, autonomia econômica e oportunidades. Precisamos de mulheres pensando na cidade inteira, na mulher periférica, na mulher negra, indígena, LGBTQIA+, na mulher com deficiência, nas mães, nas trabalhadoras e em todas aquelas que historicamente ficaram distantes dos espaços de decisão.

É importante, sim, construir alianças com homens que compreendam e apoiem a participação feminina. Mas também sabemos que dificilmente alguém que ocupa um espaço confortável de poder simplesmente levantará da cadeira para entregar seu lugar a uma mulher. É por isso que precisamos continuar lutando, nos organizando e ocupando. A mudança também depende da nossa capacidade de acreditar umas nas outras e de construir estratégias para que mais mulheres cheguem.

É nesse sentido que compreendo também a minha missão. Tudo o que aprendi ao longo da vida me levou a continuar acreditando nas mulheres. É por isso que trabalho com mulheres. É por isso que acredito na possibilidade de construirmos candidaturas, ocuparmos espaços e estarmos presentes em todos os lugares onde exista a oportunidade de participar das decisões. Meu trabalho é também despertar em muitas mulheres o protagonismo que já existe nelas, fortalecer sua autonomia, sua confiança e sua capacidade de reconhecer o próprio valor.

O momento que o Acre vive é simbólico. Não precisa ser transformado em torcida nem em disputa partidária. Pode ser uma oportunidade de olharmos para a nossa própria história e reconhecermos o quanto ainda precisamos avançar. Porque nenhuma mulher deveria precisar provar o tempo todo que é capaz.

E talvez a pergunta que fique seja justamente esta: o que mais uma mulher precisa provar? Quantas qualidades ainda precisam estar no currículo de uma mulher para que ela seja considerada preparada? Quantos anos de trabalho, quantos projetos, quantas experiências, quantas lutas ainda serão necessárias para que uma mulher seja reconhecida pela sua capacidade técnica, política e humana?

Talvez esteja na hora de pararmos de perguntar se uma mulher tem qualidades suficientes para ocupar o poder e começarmos a perguntar por que, durante tanto tempo, aceitamos que os homens ocupassem esses mesmos espaços sem exigir deles a mesma quantidade de provas. O Acre está diante de uma possibilidade histórica. Que possamos olhar para ela não apenas como uma eleição, mas como parte de uma caminhada muito maior. Uma caminhada que começou muito antes de nós e que não pode terminar depois de nós. E que nenhuma mulher precise provar mais do que a outra para ser reconhecida como capaz.

Lidianne Cabral

Educadora social e presidente da Associação de Mulheres Empreendedoras Elas Fazem Acontecer Acre

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