Sem tempo para existir: como o trabalho e o cuidado travam a autonomia das mulheres no Acre
No Acre, onde as mulheres são maioria da população e também maioria entre as chefes de família, existe uma realidade silenciosa que atravessa gerações e define tanto as possibilidades quanto os limites da vida de milhares delas. A rotina que combina trabalho, casa, cuidado e responsabilidade emocional cria um ciclo em que quase nunca sobra tempo para que essas mulheres existam para além do que entregam aos outros. Nada disso é individual: é estrutural, cultural e político.
Durante décadas, a sociedade repetiu a ideia de que a mulher é naturalmente cuidadora, como se acolher, resolver, acalmar e administrar fosse parte de um destino inevitável. O que parece elogio é, na prática, uma política do cuidado que mantém as mulheres sempre ocupadas e sempre disponíveis. Esse mecanismo começa cedo. A menina muitas vezes “amadurece” antes não por natureza, mas porque recebe desde criança responsabilidades domésticas e emocionais que não recaem sobre os meninos. Ela aprende a cuidar antes mesmo de aprender a descansar e, mais tarde, isso limita seus passos em direção à autonomia.
A pandemia apenas deixou esse cenário mais evidente. Entre 2020 e 2022, levantamentos da ONU Mulheres e do IBGE mostraram que as mulheres assumiram três vezes mais tarefas de cuidado do que os homens. No Acre, isso apareceu em lares inteiros sustentados emocional e fisicamente por mulheres que tiveram de abandonar estudos, empregos e negócios para dar conta das demandas que cresceram durante a crise. Quando o mundo voltou ao ritmo normal, elas não voltaram com as mesmas condições de partida.
Essa realidade também se intensifica quando olhamos para a mulher amazônida, especialmente para quem vive longe das áreas centrais de Rio Branco ou nos municípios mais isolados do Acre. Ali, há menos serviços de saúde, menos oportunidades de formação, menos escolas acessíveis, menos espaços de lazer e quase nenhuma rede de apoio. Muitas sustentam suas casas, seus filhos, seus pais idosos e, em muitos casos, também seus netos, enquanto continuam recebendo os menores retornos e enfrentando as maiores demandas.
Esse cenário aparece na vida de muitas mulheres acreanas que dedicaram toda a vida ao trabalho e ao sustento da família. Dona Francisca, de 67 anos, produtora e agricultora familiar da Vila Caquetá, é um exemplo dessa realidade. Depois de anos mantendo uma frutaria no centro de Rio Branco, hoje ela participa das feiras levando as frutas e verduras que cultiva. No entanto, seu tempo continua limitado: para que a filha possa trabalhar, ela cuida diariamente dosnetos e, por isso, consegue participar das feiras apenas em alguns dias. Assim como tantas outras mulheres, passou a vida inteira trabalhando para sustentar os filhos e, mesmo na maturidade, ainda não consegue ter tempo para si ou para expandir suas próprias atividades.
Segundo o Sebrae (2025), 61% das mulheres empreendedoras no Brasil afirmam que não conseguem crescer porque lhes falta tempo para planejar, estudar, descansar e amadurecer seus projetos. E dados do Observatório de Gênero do Acre (2024) mostram que as mulheres são maioria entre aquelas que abandonam cursos, empregos ou iniciativas empreendedoras por não conseguirem conciliar as jornadas que lhes são impostas. A política do cuidado opera diariamente: quanto mais elas cuidam, menos o Estado cuida delas.
Há ainda uma camada grave que precisa ser mencionada com responsabilidade. O Acre enfrenta índices preocupantes de violência de gênero, e isso revela outra contradição. Ao mesmo tempo em que as mulheres sustentam a economia local e mantêm a vida de suas famílias, muitas ainda são as mais vulneráveis justamente quando tentam recuperar sua autonomia. A busca por trabalho, estudo e independência financeira costuma ser um ponto de tensão em relações abusivas, o que torna a autonomia feminina um desafio ainda maior. Isso mostra que a autonomia das mulheres no Acre está diretamente ligada à forma como o Estado e a sociedade garantem sua segurança.
Um ponto central dessa discussão é que descansar também é uma forma de existir. Nos últimos anos, movimentos ao redor do mundo resgataram o descanso como parte fundamental da saúde mental, emocional e social. No Acre, para muitas mulheres, descansar parece um luxo, mas não é. Descansar é um direito. É respirar. É recuperar a possibilidade de existir não apenas como cuidadora, mas como pessoa. É romper, em parte, com a política do cuidado que lhes foi imposta.
Para avançar, o Acre pode construir redes de apoio reais, ampliar espaços comunitários que permitam que as mulheres trabalhem, estudem ou simplesmente desacelerem, distribuir oportunidades para além das regiões centrais, incluir a saúde mental feminina como parte da política pública e reconhecer que a economia acreana depende diretamente do trabalho das mulheres. Não se trata de ensinar as mulheres a serem fortes, porque elas já são. Trata-se de permitir que existam para além da força, do cuidado e da obrigação.
Tudo isso nos leva a uma reflexão necessária: uma mulher sem tempo não tem autonomia, e uma sociedade que não garante autonomia às suas mulheres dificilmente avança. O Acre tem força, tem mulheres extraordinárias e tem uma história construída por elas. Falta agora garantir condições para que existam plenamente, com direito ao trabalho, ao descanso e ao futuro que merecem.
E você quando foi a última vez que teve tempo para existir?