Rio Branco, AC, 16 de setembro de 2026 16:18

Suposta corrupção no Idaf aponta inserção de 100 bovinos no cadastro de Rico Leite, vice de Alan Rick

Movimentação partiu do cadastro de Marcos Venicios Perdigão, apontado como prestador de serviços da família Leite; irmão do candidato confessou corrupção ativa em acordo com o Ministério Público

Um relatório da Delegacia de Combate à Corrupção registra uma suposta inserção de 100 bovinos no cadastro de Fábio Ricardo Leite, o Rico Leite, candidato a vice-governador na chapa de Alan Rick. A movimentação aparece nos autos de uma investigação sobre pagamentos a um funcionário do Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Acre (Idaf) para realizar alterações falsas nos registros de rebanhos. Rico não consta entre os indiciados no relatório final.

O registro está na página 167 do processo nº 0003826-61.2022.8.01.0001. Ao detalhar operações de janeiro de 2020, os investigadores afirmam que, utilizando o cadastro de Marcos Venicios Perdigão Brandão de Sousa, vinculado à Fazenda Carrapicho, foram inseridos “100 bovinos no cadastro de FABIO RICARDO LEITE”. A tabela reproduzida no documento identifica a movimentação em 14 de janeiro daquele ano, com destino à Fazenda Castanhal, em Bujari.

Desde aquela época, Perdigão mantém relação com a administração das propriedades da família Leite. Segundo a ex-secretária Jacilene do Nascimento Araújo, ele “não era funcionário formal da família, mas sim um prestador de serviço da família”. Ela também afirmou que Perdigão era próximo de José Marcos e Leandro, irmãos de Rico, e de Gabriel, filho de José Marcos, estando autorizado a movimentar os cadastros dos integrantes da família.

Jacilene trabalhava no escritório que administrava aproximadamente oito fazendas e cuidava de contas, notas fiscais, folha de pagamento e emissão de Guias de Trânsito Animal (GTAs). Seus chefes imediatos, conforme declarou à polícia, eram José Marcos Leite Júnior e Leandro Luiz Leite. Na investigação, ela aparece como intermediária entre Perdigão e Raimar de Assis Modesto, funcionário do Idaf.

“Foi possível identificar que o MARCOS VENICIOS PERDIGÃO BRANDÃO DE SOUZA […] por intermédio da nacional JACILENE DO NASCIMENTO ARAÚJO entrou em contato diversas vezes com o RAIMAR para que fizesse inserções falsas no sistema do IDAF”, afirma o relatório de investigação.

A equipe policial identificou 40 transferências de Jacilene para Raimar, somando R$ 19.890, além de nove transferências diretamente de Perdigão ao servidor, no total de R$ 4.016. Segundo o documento, os investigadores confrontaram os períodos dos pagamentos com as movimentações de bovinos no sistema para verificar alterações nos cadastros.

Perdigão, que confessou corrupção ativa e firmou acordo com o Ministério Público no caso do Idaf, também atua como cabo eleitoral de Alan Rick. Nos bastidores, circula a informação de que ele é cotado para comandar a Secretaria de Agricultura caso Alan Rick seja eleito.

Alterações poderiam fazer o cadastro apresentar mais gado que o existente
Em depoimento, Jacilene descreveu uma operação destinada a elevar artificialmente o saldo de uma propriedade. Segundo ela, após um empréstimo junto ao Banco da Amazônia, “precisavam que tivesse mais gado do que realmente tinha no pasto”. A ex-secretária relatou a inserção de aproximadamente 3 mil animais, mediante pagamento de R$ 4,5 mil a Raimar, e atribuiu as orientações aos seus chefes José Marcos e Leandro.

O depoimento documenta uma finalidade atribuída a outra alteração investigada, mas não demonstra quais bovinos tenham sido utilizados para obter crédito ou apresentar garantias bancárias. Os documentos examinados também não esclarecem se esse lançamento correspondeu a uma transferência efetiva de animais ou a um acréscimo fictício no saldo do candidato.

A mãe dos irmãos, Ana Maria Leite, afirmou à polícia que não entendia das operações e que a movimentação dos rebanhos era realizada pelos filhos. O relatório reproduz sua declaração de que “quem faz as movimentações dos gados são seus filhos, os quatro filhos JOSÉ MARCOS, FABIO RICARDO, LEANDRO e MURILO”. A fala, portanto, situa Rico na administração dos rebanhos familiares.

Irmão confessou pagamento para inserir dados falsos
Ao concluir o inquérito, em maio de 2023, a Polícia Civil indiciou Raimar por corrupção passiva e Perdigão, Jacilene e José Marcos Leite Júnior por corrupção ativa. Posteriormente, os três últimos firmaram acordos de não persecução penal com o Ministério Público.

No termo de confissão assinado em 20 de julho de 2023, José Marcos, irmão de Rico, declarou ter oferecido vantagem indevida por intermédio de outra pessoa, mediante depósitos na conta de Raimar, “com fins de inserção de dados falsos no sistema” do Idaf “para benefício próprio”.

O acordo estabeleceu prestação pecuniária de R$ 90 mil, cujo pagamento integral foi comunicado por sua defesa em dezembro daquele ano. O procedimento não equivale a uma condenação criminal.

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