Tecnologia, inovação e mulheres: quem sustenta o futuro do trabalho no Acre
Nos últimos anos, falar de inovação, tecnologia, bioeconomia e futuro do trabalho passou a fazer parte do vocabulário cotidiano. Quando a Amazônia entra nessa conversa, o debate ganha ainda mais visibilidade, pela centralidade da região nas agendas ambientais, científicas e econômicas globais. No Acre, no entanto, essa discussão precisa ir além dos conceitos e se aproximar da vida real das mulheres, especialmente daquelas que sustentam pequenos negócios e carregam, muitas vezes sozinhas, a responsabilidade pelo sustento familiar.
Os dados mostram avanços no acesso à internet no Brasil. Em 2024, mais de 86% da população estava conectada, índice que se manteve em 2025 e segue em crescimento em 2026. Ainda assim, milhões de brasileiros continuam fora da rede. No Acre, essa distância é mais sensível. Cerca de 82% da população com mais de 10 anos acessou a internet em 2024, colocando o estado entre os com menor conectividade do país. Mesmo com o aumento de domicílios conectados, o acesso segue instável, caro e, muitas vezes, insuficiente para garantir autonomia, geração de renda e desenvolvimento de negócios.
Reduzir esse cenário apenas à falta de infraestrutura seria simplificar uma realidade muito mais complexa. O afastamento de muitas mulheres de pequenos negócios do ambiente digital também está ligado à violência estrutural, à baixa autoestima e a uma cultura ainda marcada por valores conservadores, machistas e patriarcais. Muitas mulheres não aprenderam a se reconhecer como empreendedoras. Veem seus negócios apenas como um complemento de renda, e não como um caminho possível de independência financeira, autonomia e liberdade.
O machismo é estrutural e atravessa todas as bases da sociedade. Ele influencia relações familiares, oportunidades de estudo, a divisão do trabalho doméstico e, naturalmente, também impacta o acesso das mulheres à tecnologia, à inovação e ao conhecimento. Quando uma mulher não acredita que pode aprender, crescer ou ocupar espaços digitais, isso não é uma decisão individual. É resultado de um processo social que precisa ser enfrentado com cuidado, informação, formação e apoio contínuo.
Nesse contexto, a exclusão digital não se expressa apenas em números. Ela aparece no medo de errar, na dificuldade de se comunicar, na ausência de redes de apoio e na sensação de não pertencimento. Para mulheres que vivem em ramais, municípios mais afastados, comunidades com acesso limitado à comunicação ou em espaços institucionais pouco visíveis, essas barreiras se intensificam. São mulheres que já desenvolvem soluções, práticas sustentáveis e formas próprias de inovação, mas que seguem pouco reconhecidas nos grandes debates sobre desenvolvimento e tecnologia.
É importante destacar que a inovação na Amazônia não começa nos laboratórios ou nos editais. Ela acontece há décadas na prática cotidiana de mulheres que reinventam processos, cuidam dos recursos naturais, constroem redes solidárias e criam alternativas de sustento e desenvolvimento. Dar visibilidade a essas experiências não é apenas reconhecer saberes locais, é ampliar referências, conectar iniciativas e inspirar outros lugares a enxergarem que novos modelos de desenvolvimento são possíveis.
Essas iniciativas locais são fundamentais, mas não se sustentam sozinhas. Precisam de acesso garantido, conectividade de qualidade, formação continuada, produção de dados, pesquisa e estratégias estruturadas de inclusão digital. Sem isso, corre-se o risco de manter experiências potentes isoladas, quando, na verdade, elas têm capacidade de dialogar com outros contextos e ampliar seu impacto.
É por isso que o papel das instituições é estratégico. Universidades, projetos de ciência e tecnologia, associações, coletivos e organizações de apoio ao empreendedorismo cumprem uma função essencial ao oferecer formação, orientação e apoio ao empreendedorismo feminino. Mas esse trabalho precisa ser pensado da base ao desenvolvimento. Não basta ensinar ferramentas digitais se não houver escuta, fortalecimento da autoestima e compreensão das barreiras sociais que afastam tantas mulheres desses espaços. Informação sem acolhimento dificilmente gera transformação.
Nesse cenário, a tecnologia, especialmente a Inteligência Artificial, precisa ser apresentada como aliada. A IA pode ajudar mulheres a organizar rotinas, melhorar a gestão dos negócios, ampliar vendas, otimizar a comunicação e reduzir a sobrecarga cotidiana. Para quem já vive exausta, conciliando trabalho, casa, cuidado e renda, a tecnologia pode representar mais tranquilidade, mais tempo e mais autonomia. E quando as mulheres avançam, quem ganha é toda a sociedade, porque são elas que movem a base produtiva do Estado do Acre, sustentando economias locais, feiras, serviços, cadeias da bioeconomia e o cotidiano de milhares de famílias.
Apesar de todos os desafios, o Acre já apresenta exemplos inspiradores de protagonismo feminino na inovação e na bioeconomia. Mulheres empreendedoras, cientistas, educadoras e líderes comunitárias seguem abrindo caminhos, conectando saberes tradicionais à tecnologia e ampliando horizontes para outras mulheres.
O futuro do trabalho será digital. No Acre, porém, ele só fará sentido se for inclusivo, estruturado e conectado à realidade das mulheres. Isso exige debate permanente, produção de dados, pesquisa e ampliação do acesso como direito. Reconhecer as soluções que já existem e conectá-las a redes mais amplas é parte essencial desse processo.
Garantir condições reais para que essas mulheres avancem não é apenas um desafio coletivo, é um compromisso direto com o futuro do nosso estado.
Lidianne Cabral
Educadora social, com atuação de mais de 20 anos em movimentos de mulheres.
Líder idealizadora e fundadora da Associação de Mulheres Empreendedoras Elas Fazem Acontecer Acre.
Comunicadora e produtora cultural, com atuação em movimentos sociais e na promoção dos direitos humanos.