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Venda do TikTok nos EUA deve ser concluída sob pressão política e disputa global por dados

A venda da empresa que controla a plataforma TikTok nos Estados Unidos deve ser consolidada nesta quinta-feira, 22, marcando um dos maiores negócios já realizados pela chinesa ByteDance, avaliada como empresa unicórnio. A transação ocorre sob forte pressão do governo norte-americano e retoma um embate iniciado ainda no primeiro mandato de Donald Trump, tema que voltou a ganhar destaque durante sua segunda campanha à Casa Branca.

O acordo foi conduzido em meio a justificativas de segurança nacional levantadas pelos Estados Unidos, enquanto o governo chinês se posicionou de forma a tratar a operação como um gesto para preservar as relações comerciais entre os dois países. Na prática, o poder de decisão e o controle dos dados dos usuários deixam de estar majoritariamente nas mãos dos chineses e passam para empresas alinhadas ao governo Trump e seus aliados. A ByteDance permanecerá com 20% de participação no negócio.

Entre os novos protagonistas da operação estão o fundo MGX, ligado à família real dos Emirados Árabes Unidos, e a empresa norte-americana Oracle, que ficará responsável pela gestão do armazenamento de dados da plataforma. O valor da transação é estimado em US$ 14 bilhões, segundo o vice-presidente dos Estados Unidos, James Vance. Atualmente, o TikTok é a quarta maior plataforma digital do país, com cerca de 170 milhões de usuários.

Para a especialista em regulação e desinformação Andressa Michelotti, há uma contradição evidente no movimento. Segundo ela, os Estados Unidos, ao mesmo tempo em que defendem o neoliberalismo econômico, recorrem ao argumento da segurança nacional para justificar o controle sobre os dados da população. Na avaliação da pesquisadora, isso afeta tanto o livre mercado quanto a liberdade de expressão, especialmente diante das ameaças anteriores de fechamento da plataforma.

Andressa, que também é pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais e da Universidade de Utrecht, destaca que o jogo de poder vai além do simples controle de dados. Um dos nomes centrais do negócio é Larry Ellison, à frente da participação da Oracle. Ele tem sido classificado como um brolygarch, termo usado para definir grandes empresários alinhados aos interesses de governantes. Trump, por sua vez, tem se cercado de figuras semelhantes, como o ex-presidente da Meta, Mark Zuckerberg, e o empresário Elon Musk, dono da SpaceX.

A aquisição forçada ignorou os apelos da ByteDance, que alegava operar com transparência e independência em relação ao governo chinês. A empresa argumenta que Pequim possui participação minoritária, enquanto cerca de 60% do capital está nas mãos de fundos internacionais como BlackRock, General Atlantic e Susquehanna. Outros 20% pertencem aos empregados da TikTok, incluindo aproximadamente 7 mil trabalhadores nos Estados Unidos. Os 20% restantes são dos fundadores, entre eles Zhang Yiming, o único nome publicamente conhecido.

Apesar das negativas da empresa quanto a qualquer controle estatal, o governo chinês se manifestou oficialmente sobre o episódio, classificado como a chamada Guerra do TikTok. Em dezembro, quando a negociação foi anunciada, o porta-voz do Ministério do Comércio da China, He Yongqian, afirmou que Pequim espera que as partes envolvidas cheguem a uma solução que respeite as leis e regulamentos chineses e que alcance um equilíbrio de interesses.