Uma investigação e um estudo coordenado pela pesquisadora da Universidade Federal do Acre (Universidade Federal do Acre), Sonaira Souza Silva, em parceria com dados obtidos pela Folha de S.Paulo, revela um padrão recorrente de abertura de vias clandestinas na Amazônia que começa com desmatamento ilegal em áreas próximas a rios, voltado à extração de madeira, garimpo ou expansão da pecuária. A partir dessas ações, surgem trilhas conhecidas como varadouros, que gradualmente se ampliam e passam a conectar novas ocupações humanas, consolidando um processo de ocupação desordenada da floresta.
Com o avanço da exploração, essas trilhas evoluem para estradas improvisadas que se conectam a vias maiores, muitas vezes com apoio indireto do poder público por meio de obras de manutenção e ampliação financiadas por emendas parlamentares. Segundo o levantamento “Expansão de Estradas e Ramais no Estado do Acre: 1989 a 2025”, houve forte aceleração desse processo entre 2019 e 2020, durante o governo do então presidente Jair Bolsonaro, e novos picos também foram registrados em 2025, já sob a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A média anual no período analisado foi de cerca de 540 km de novas vias no estado.
O estudo também aponta impactos ambientais significativos, especialmente em áreas sensíveis como unidades de conservação, onde foram registrados quase 3.000 km de estradas desde 1990. Pesquisas complementares da especialista Cecília Leal, da Rede Amazônia Sustentável vinculada à Universidade de Lancaster, destacam que essas vias provocam bloqueios em igarapés e alteram profundamente os cursos d’água, criando novos ambientes aquáticos e efeitos cumulativos ainda pouco considerados por autoridades e pela academia.
Em resposta aos dados, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade afirma que a expansão viária está associada a mudanças econômicas nas regiões, como a substituição da extração de borracha pela pecuária, além de demandas de acesso de comunidades locais. Já o governo do Acre sustenta que as obras seguem critérios técnicos e legais, embora reconheça que intervenções irregulares são investigadas pelo órgão ambiental estadual. O caso de ramais como o Barbary, citado no levantamento e alvo de apurações da Supremo Tribunal Federal com participação do ministro Flávio Dino, ilustra como essas estradas se tornaram também foco de investigações sobre impactos ambientais e uso de recursos públicos.


