Rio Branco, AC, 14 de agosto de 2026 09:57

E se Anitta estiver fazendo algo que nossas escolas e instituições não conseguiram fazer?

Pode-se gostar ou não de Anitta. Pode-se gostar ou não de sua música, estética ou escolhas. Mas é impossível ignorar o tamanho da plataforma que ela construiu e, principalmente, o uso que vem fazendo dessa visibilidade para colocar no centro da cultura popular pessoas, povos, religiões e histórias que durante muito tempo permaneceram à margem.

Nos últimos anos, Anitta deixou de ser apenas uma artista em busca de espaço internacional e passou a utilizar sua obra como uma ponte entre diferentes expressões da cultura brasileira e milhões de pessoas dentro e fora do país. Suas referências às religiões de matriz africana, ao candomblé, aos orixás, ao funk, às periferias e, agora, aos povos indígenas revelam um movimento que merece ser observado para além do entretenimento.

Um dos exemplos mais emblemáticos está em “OKE”, faixa de EQUILIBRIVM II, que reúne a rapper indígena Katú Mirim e o Brô MC’s, grupo formado por artistas Guarani-Kaiowá. A música cita nominalmente 17 povos indígenas: Pataxó, Tikuna, Mura, Terena, Turuwara, Guajajara, Potiguara, Tapeba, Tupinambá, Yanomami, Kayapó, Munduruku, Ashaninka, Kalapalo, Makuxi, Xucuru e Guarani-Kaiowá.

Pode parecer apenas uma sequência de nomes dentro de uma música. Não é. Em um país que historicamente tratou os povos indígenas como uma categoria única, dar nome também é dar visibilidade. Pataxó não é Yanomami. Tikuna não é Munduruku. Kayapó não é Guarani-Kaiowá. Cada povo possui sua própria história, identidade, território, cultura e memória.

E aqui está a força da cultura popular: ela consegue levar assuntos para lugares onde talvez um livro, uma palestra ou uma reportagem nunca chegassem. Uma pessoa pode ouvir uma música, pesquisar um nome, descobrir um povo, conhecer sua história e, quem sabe, mudar a maneira como enxerga aquela realidade. A música termina, mas a curiosidade pode permanecer.

Esse movimento não começou agora. Em “Aceita”, Anitta colocou referências ao candomblé e aos orixás no centro de uma produção de grande repercussão, provocando discussões e também expondo a intolerância que ainda atinge as religiões de matriz africana.

É importante dizer que Anitta não é porta-voz dos povos indígenas ou das religiões tradicionais. E não precisa ser. Seu papel é outro: ela possui uma plataforma gigantesca e pode decidir o que fazer com ela.

Em “OKE”, a presença de Katú Mirim e do Brô MC’s é especialmente significativa porque os povos indígenas não aparecem apenas como estética ou cenário. Artistas indígenas participam da obra e ocupam espaço em uma produção que alcança públicos que talvez nunca tivessem contato com suas vozes.

Isso importa porque o Brasil passou séculos falando pelos povos indígenas, pelos negros e pelas comunidades tradicionais. Transformou os povos originários em personagens do passado, tratou religiões de matriz africana com preconceito e criminalizou manifestações culturais periféricas antes de reconhecê-las como parte fundamental da identidade nacional.

Hoje, cultura também disputa espaço no algoritmo. Uma música pode despertar uma pesquisa. Um videoclipe pode apresentar uma tradição. Um artista pode levar milhões de pessoas a conhecer outro artista.

Anitta não substitui políticas públicas, educação ou o protagonismo das próprias comunidades. Também não está acima de críticas. Representar culturas exige responsabilidade e pode, sim, gerar debates sobre apropriação, simplificação ou comercialização.

Mas reconhecer esses riscos não significa ignorar o valor da visibilidade.

Ao citar 17 povos indígenas e dividir sua música com artistas indígenas, Anitta faz algo simples e poderoso: dá nome a quem durante muito tempo foi colocado em uma categoria genérica e invisível.

E nomes carregam histórias.

Os povos originários não pertencem apenas ao passado. Eles estão aqui, produzindo arte, música, conhecimento, política e cultura. São parte viva do Brasil de hoje.

Talvez seja essa a maior potência do trabalho de Anitta nos últimos anos: levar para o mundo não apenas o Brasil que já conhecemos, mas também aquele que durante muito tempo foi escondido, marginalizado ou ignorado.

No fim, a pergunta não deveria ser apenas se gostamos ou não de Anitta.

A pergunta é: o que fazemos quando temos milhões de pessoas olhando para nós?

Ela poderia usar essa luz apenas para iluminar a si mesma. Em parte, escolheu também iluminar outras histórias.

A música acaba. O clipe termina. O algoritmo muda de assunto.

Mas os nomes ficam.

E quando uma artista transforma milhões de visualizações em possibilidades de descoberta, a música deixa de ser apenas entretenimento.

Ela também pode ser memória, reconhecimento e resistência cultural.

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