Por George Naylor
Um casal caminhando tranquilamente pela rua, cada um segurando uma coleira. Até aí, nada que chamasse tanta atenção. O detalhe é que, na ponta delas, em vez de cães, havia um galo e uma galinha. A cena, tão inusitada quanto curiosa, rapidamente desperta olhares, risadas e celulares apontados para registrar o momento. Afinal, não é todo dia que se vê uma galinha passeando de coleira.
Mas o que exatamente torna essa cena tão engraçada ou estranha? Talvez seja justamente o fato de ela fugir daquilo que aprendemos a considerar normal. Cachorros na coleira fazem parte do nosso cotidiano. Galinhas, não. E é curioso como estabelecemos fronteiras tão rígidas entre o que é comum e o que é exótico, muitas vezes sem sequer questionar quem determinou essas regras.
O conceito de normalidade é, em grande parte, construído pelos nossos hábitos. Aquilo que vemos repetidamente deixa de nos causar estranhamento. O que foge do padrão, por outro lado, ganha imediatamente o rótulo de diferente, excêntrico ou até absurdo. O exótico, muitas vezes, não está necessariamente naquilo que vemos, mas naquilo que ainda não estamos acostumados a ver.
É claro que uma galinha na coleira continuará sendo uma cena pouco convencional para a maioria das pessoas. E talvez seja justamente aí que esteja a graça da situação. O problema não está em achar curioso. O problema começa quando o nosso estranhamento se transforma em julgamento e passamos a acreditar que aquilo que não compreendemos não deveria existir.
Fazemos isso o tempo todo, inclusive com pessoas. Estranhamos roupas, comportamentos, escolhas, formas de amar, de viver, de pensar e de ocupar o mundo. O diferente frequentemente vira motivo de piada antes mesmo de ser compreendido. E, muitas vezes, justificamos esse comportamento com uma frase aparentemente inocente: “É estranho”.
Talvez a cena daquele casal nos ensine uma pequena lição sobre convivência. Não precisamos achar tudo normal, gostar de tudo ou compreender todas as escolhas alheias. Mas podemos aprender a conviver com aquilo que foge da nossa referência sem transformar a diferença em motivo de desprezo. Afinal, o nosso cotidiano não é a medida universal do mundo.
No fim, o galo e a galinha apenas seguiram seu passeio, enquanto nós paramos para olhar. Talvez o mais curioso daquela cena não sejam as galinhas na coleira, mas a nossa necessidade de classificar tudo como normal ou estranho.


