Rio Branco, AC, 22 de setembro de 2026 16:20
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A Rainha da Floresta se despede, mas deixa seu legado plantado na cultura do Acre

O Acre perde uma mulher que não cabe apenas nas páginas de um obituário. A professora aposentada Marinete de Aquino Carvalho, aos 74 anos, fez sua passagem na última segunda-feira, 21, no Hospital do Câncer, em Porto Velho (RO), onde enfrentava um câncer de pâncreas. Viúva do jornalista Fé em Deus, Marinete deixa os filhos Alexandre, Pedro e João e um casal de netos, mas deixa também uma herança que ultrapassa os limites da família: sua contribuição para a cultura, para a memória e para a identidade de um povo.

Marinete foi uma dessas mulheres que compreenderam que cultura não é apenas espetáculo. É memória, resistência, pertencimento e, sobretudo, uma forma de impedir que a história seja apagada pelo tempo. Sua presença no movimento cultural acreano ajudou a fortalecer manifestações, personagens e tradições que muitas vezes sobreviveram graças à dedicação de pessoas que, como ela, escolheram fazer da cultura uma missão.

Em uma terra marcada pela força da floresta e pelas histórias de quem ajudou a construir o Acre, Marinete tornou-se parte dessa memória. A chamada Rainha da Floresta carregava consigo uma simbologia que ia muito além de um título. Representava a mulher acreana que ocupa espaços, preserva saberes e entende que um povo sem memória corre o risco de perder também a própria identidade.

Sua trajetória como professora dialogava diretamente com essa vocação. Educar nunca foi apenas transmitir conteúdos. Também é ensinar a reconhecer a própria história, valorizar as raízes e compreender a importância daqueles que vieram antes. E Marinete fez isso dentro e fora da sala de aula, deixando marcas em diferentes gerações.

Sua participação no movimento cultural também revela uma característica cada vez mais rara: a disposição de trabalhar pela cultura sem esperar que os holofotes estivessem sempre voltados para si. A cultura acreana foi construída por artistas, produtores, professores, mestres da tradição popular, comunicadores e tantos outros personagens que, durante décadas, fizeram muito com pouco. Marinete esteve entre essas pessoas.

É importante dizer isso justamente agora, quando sua ausência provoca silêncio. Porque homenagear alguém depois da morte não pode significar apenas lembrar datas, títulos ou feitos. É preciso reconhecer a importância de sua caminhada enquanto ainda existe memória daqueles que compartilharam seus sonhos, suas lutas e seus projetos.

Marinete deixa uma pergunta incômoda para o Acre: o que estamos fazendo para preservar a memória daqueles que dedicaram a vida à cultura?

A resposta não pode estar apenas em discursos de despedida. Precisa estar nos arquivos, nos livros, nas escolas, nos espaços culturais, nos registros audiovisuais e, principalmente, na valorização permanente daqueles que ajudaram a construir a identidade acreana.

A morte de Marinete de Aquino Carvalho encerra uma trajetória, mas não deveria encerrar sua história. Cabe às novas gerações conhecer, registrar e continuar aquilo que pessoas como ela ajudaram a construir.

A Rainha da Floresta agora pertence à memória. E memória, quando é verdadeira, não morre.

Marinete parte deixando saudade na família, nos amigos e naqueles que caminharam com ela pelo movimento cultural. Mas deixa também um legado que merece ser reconhecido pelo Acre: o de uma mulher que compreendeu que defender a cultura é, em última instância, defender a própria existência de um povo.

Que seus filhos Alexandre, Pedro e João, seus netos, familiares e amigos encontrem conforto neste momento de despedida.

E que o Acre saiba reconhecer Marinete não apenas pela mulher que foi, mas pela história que ajudou a manter viva.

A floresta perde uma de suas rainhas. Mas suas raízes permanecem fincadas na cultura, na memória e no coração do Acre.

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