Rio Branco, AC, 12 de julho de 2026 10:10

Quando alguém perde tudo nas apostas digitais, a culpa é do Estado ou do apostador?

Íam Arábar

Nos últimos anos, as apostas digitais ganharam força em todo o território nacional, tornando-se popularmente conhecidas por expressões como “jogo do tigrinho”. No início, o fenômeno parecia inofensivo e chegou a ser apresentado como mais uma possibilidade de ganho financeiro para os brasileiros. No entanto, com o passar do tempo, surgiu um problema que já pode ser tratado como uma grave questão social: o vício em apostas.

O National Institute on Drug Abuse descreve a dependência como uma doença crônica do cérebro capaz de alterar os circuitos de recompensa, motivação, memória e controle executivo. Esse processo pode ser estimulado por ganhos iniciais, que reforçam no apostador a sensação de que novas recompensas financeiras estão próximas. O problema se agrava quando a expectativa de lucro passa a controlar o comportamento da pessoa, levando-a a vender bens, contrair dívidas e colocar em risco a estabilidade financeira da própria família.

Diante disso, surge uma pergunta importante: em que momento a responsabilidade deixa de ser exclusivamente de quem toma uma decisão prejudicial e passa também a envolver o Estado, responsável por regulamentar, fiscalizar e proteger a sociedade?

Em 2026, ganhou força a campanha “Dê block no tigrinho”, que incentivou o bloqueio de perfis e plataformas ligados às apostas digitais. Muitas pessoas aderiram ao movimento, mas a iniciativa também encontrou resistência. Um dos principais argumentos contrários é o de que cada indivíduo possui liberdade para fazer suas próprias escolhas e que o Estado ou terceiros não deveriam ser responsabilizados pela falta de autocontrole de quem decidiu comprometer a própria renda na esperança de obter lucro fácil.

Entretanto, a Constituição Federal de 1988 estabelece que a proteção das pessoas também é dever do Estado, especialmente por meio da garantia da dignidade humana, da saúde, da assistência social e da seguridade social. Isso não significa retirar completamente a responsabilidade individual, mas reconhecer que o poder público possui o dever de fiscalizar atividades que podem gerar danos econômicos, psicológicos e sociais em larga escala.

Com base nisso, faz-se necessária uma análise detalhada dos fatos, não apenas com o objetivo de responsabilizar alguém, mas de verificar se as casas de apostas estão funcionando de maneira honesta, transparente e segura. Também é fundamental promover pesquisas qualitativas e quantitativas em todo o país para compreender a verdadeira extensão dos danos materiais, familiares e psicológicos provocados pelas apostas digitais. Somente a partir de dados sólidos será possível definir quais medidas devem ser adotadas.

O fato é que, quando uma pessoa decide buscar lucro fácil a qualquer custo, precisa compreender que, em um jogo de apostas, o ganho de alguém depende, inevitavelmente, da perda de muitos outros. Para que um apostador sorria, inúmeros podem terminar chorando. Esse é um ciclo que, sem controle, informação e fiscalização, tende a se repetir indefinidamente.

Compartilhe

Facebook
Twitter
WhatsApp