Na primeira votação nacional com participação das mulheres na Itália, em 1946 eleitoras receberam uma orientação incomum para evitar que um simples detalhe colocasse a validade do voto em risco: o seu batom.
Um simples batom se tornou parte de um dos capítulos mais importantes da história política italiana. Em 2 de junho de 1946, quando as mulheres participaram pela primeira vez de uma votação nacional na Itália, uma orientação chamou atenção: elas deveriam evitar o cosmético nos lábios antes de entrar na cabine eleitoral.
Naquele dia, os italianos foram às urnas para decidir, por meio de um referendo, se o país continuaria como uma monarquia ou se passaria a ser uma república. Também foram escolhidos os representantes da Assembleia Constituinte. Para as mulheres, aquele momento representava a chegada a uma votação nacional depois de terem exercido o direito ao voto pela primeira vez nas eleições municipais realizadas meses antes, a partir de março daquele ano.
A recomendação sobre o batom tinha uma explicação prática. Às vésperas da votação, o jornal italiano Corriere della Sera publicou uma orientação para que as eleitoras comparecessem “sem batom”. Havia preocupação de que, durante o manuseio e fechamento da cédula, o cosmético deixasse uma marca no papel. Como sinais capazes de identificar o eleitor poderiam comprometer o sigilo e a validade do voto, a orientação buscava evitar qualquer risco.
Por isso, dizer que mulheres eram simplesmente “proibidas de votar de batom” não é totalmente correto. O batom não retirava o direito de ninguém votar. O problema era a possibilidade de uma marca acidental ser interpretada como identificação da cédula. A recomendação acabou se tornando um dos detalhes mais curiosos daquele momento histórico.
O resultado foi muito além das urnas. Vinte e uma mulheres foram eleitas para a Assembleia Constituinte, participando da construção da nova ordem política italiana. O referendo também terminou com a vitória da República, encerrando a monarquia no país.
Oito décadas depois, a história do batom ajuda a dimensionar como um direito hoje considerado parte fundamental da democracia foi exercido pelas italianas em meio a regras, cuidados e mudanças profundas. Elas foram às urnas orientadas a deixar o batom de lado, mas ajudaram a deixar uma marca que atravessou gerações.


